Cultura em síntese

A cidade nova também nasce sob o signo da arte. Lucio Costa desenha a urbs, mas também defende que o seu destino é ser a civitas possuidora dos atributos de uma capital. A definição está lá no seu Relatório do Plano Piloto: “cidade planejada para o trabalho ordenado e eficiente, mas ao mesmo tempo cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual, capaz de tornar-se com o tempo, além de centro de governo e administração, num foco de cultura dos mais lúcidos e sensíveis do país”.

A cidade é monumental, não no sentido da ostentação, previne Lucio e narra como a solução da cidade se apresentou a ele: “nasceu de um gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz”.

O Eixo Monumental é um dos definidores da forma do Plano Piloto, o outro é o Eixo Rodoviário. A proporção de cada um desses eixos revela o conjunto da arquitetura, presente tanto nos espaços governamentais e institucionais quanto na circulação das vias. No Extremo Leste do Eixo Monumental, encontra-se a Praça dos Três Poderes, seguida da Esplanada dos Ministérios. No lado Oeste, depois do cruzamento dos eixos, onde encontra-se a Rodoviária, localiza-se o parque onde está situada a Torre de Televisão, com fontes luminosas e sonoras. Depois, vem o Setor de Difusão Cultural, o Centro de Convenções, a Praça do Buriti. No extremo Oeste, situa-se a Rodoferroviária, antes apenas estação de trens. Uma nova rodoviária está sendo construída na via Epia.

A arquitetura da Esplanada dos Ministérios é formada pelo conjunto homogêneo dos edifícios dos ministérios. A esplanada é um espaço monumental, no qual prevalece a horizontalidade em relação aos edifícios que a limitam, permitindo a visão de extensas áreas livres. Depois da cidade construída, como solução para suprir a demanda de espaço em alguns ministérios, foram criados os anexos, concebidos como edifícios isolados ligados aos originais por passarelas.

Intersecções, cruzamento de eixos, setores específicos, galerias, triângulos. Lucio Costa defende a cidade viva em quatro escalas: a monumental, a bucólica, a residencial e a gregária. “É assim que, sendo monumental, é também cômoda, eficiente, acolhedora e íntima. É ao mesmo tempo derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional. Brasília, capital aérea e rodoviária; cidade-parque, sonho arqui-secular do Patriarca”.

Brasília passa a ser discutida no Brasil e em certos pontos do mundo, de vários ângulos. Chega a ser criticada severamente por urbanistas e políticos.

Ainda em 1959, realiza-se na empoeirada urbs um Congresso Internacional de Críticos de Arte. O brasileiro Mário Pedrosa dirá que a cidade nasce, então, sob o signo da arte moderna e contemporânea.

Do ponto de vista do sociólogo Gilberto Freyre, Brasília representa uma nova perspectiva para o Brasil: “a perspectiva de um Brasil verdadeiramente inter-regional no seu modo de ser nação una e, ao mesmo tempo, plural; um Brasil feito de Brasis”.

O geógrafo Milton Santos reconhecerá que “Brasília é a primeira grande cidade mundial nascida e completamente edificada em plena era científico-técnica”. Havia um capricho estético por trás de toda a força daquele novo conceito de urbanismo, arquitetura e arte.

Isso mostra porque até hoje Oscar Niemeyer tem peso quando se fala da continuidade da história de Brasília.

Um diagnóstico preciso de que os habitantes viverão esse novo momento está nas palavras de Edson Nery das Fonseca, um dos fundadores da Biblioteca Central da Universidade de Brasília: “A nova capital é uma verdadeira síntese da cultura brasileira, para a qual contribuíram europeus, africanos, ameríndios e, mais recentemente, asiáticos. Elementos míticos e lógicos, rústicos e civilizadores, tradicionais e modernos misturam-se nas origens e na implantação da cidade, dando-lhe características ímpares”.

Criou-se, a partir de educadores como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro, um conceito novo de educação para a cidade. A cultura também estava conectada com essas inovações, que seriam percebidas talvez muito demoradamente, mas constituíam diferenças das experiências artístico-culturais de outras cidades (as escolas-parque, colégios experimentais como o Ciem, ligado à UnB, o Elefante Branco, etc.) ao mesmo tempo em que as novidades da música como a Bossa Nova, dos filmes com o Cinema Novo, da arquitetura com a Arte Moderna, confluem para a Cidade Nova.

Niemeyer traz um novo barroco à luz, enquanto Tom Jobim e Vinícius compõem a Sinfonia da Alvorada, enquanto Athos Bulcão expõe a arte na pele dos monumentos, enquanto pintores e artistas do concretismo e do neoconcretismo abraçam diversos planos pilotos de linguagem.

Entre os renomados que podem ser citados como semeadores e pioneiros na nova capital, estão escritores como Cyro dos Anjos e Samuel Rawet, Dinah Silveira de Queiroz e os filósofos Eudoro de Souza (mitólogo) e Agostinho da Silva, ambos de origem portuguesa. A história também está registrada nas crônicas de Clemente Luz, nas reportagens em série de Adirson Vasconcellos, nos jornais diários (o Correio Braziliense teve seu primeiro número lançado no dia da inauguração da cidade). Não se pode esquecer aqui um patrimônio: a revista Brasília, editada pela Novacap.

Os primeiros cinemas em Brasília foram instalados no cenário de madeiras da Cidade-Livre. Na inauguração da cidade, fizeram espetáculos para o público, nomes como o do maestro Eleazar de Carvalho e o dramaturgo Nelson Rodrigues, convidado presente na inauguração. No Brasília Palace Hotel, ao lado do Palácio da Alvorada, músicos, cineastas e repórteres traziam a sua bossa para a cidade-nua que, inicialmente, causava algum estranhamento, mas logo todos constatavam que estavam na “sua” cidade.

Em junho de 1960, é criada a Fundação Cultural e para sua direção é chamado o poeta Ferreira Gullar. A Fundação, vinculada à Secretaria de Educação e Cultura, tem planos bem estabelecidos por Gullar, que pensou num grande Museu de Arte Popular próximo ao Aeroporto e trouxe para Brasília a escola de samba da Mangueira e o bumba-meu-boi do Seu Teodoro.

A cidade se deixa contaminar pelas primeiras estrelas que chegam aqui: a cantora lírica Diva Pieranti se apresentou no Clube Paranoá, a dançarina Eros Volúsia participou de um desfile de modas no Brasília Palace Hotel e outros artistas como Marlene, Emilinha Borba, Grande Otelo, Ângela Maria, Pixinguinha e Louis Armstrong, estiveram em Brasilia se apresentando em diversas ocasiões.

Outros marcos: a instalação em 1958 de uma filial da Rádio Nacional. Noutra estação, a Rádio Educadora, o maestro Claudio Santoro tinha um programa de comentários musicais. O primeiro lançamento de livros em 1959, na 1ª Semana de Arte de Brasília, com palestra do professor e ensaísta Alfredo Mesquita, da Escola de Arte Dramática de São Paulo. O Cine Brasília é inaugurado em 22 de abril de 1960, exibindo um título norte-americano. Gil Vicente e Pernambuco de Oliveira estão entre os primeiros dramaturgos montados na cidade. Sylvia Orthoff é uma outra referência: deu aulas no Caseb e fez uma montagem premiada de Morte e Vida Severina, de João Cabral. A autora do Hino Oficial da cidade é a pianista Neuza França, que traz para uma oficina Magdalena Tagliaferro, uma das pianistas brasileiras mais célebres.

A Universidade de Brasília surge em 1962, com um corpo de professores na área da arquitetura, da literatura, do cinema, do teatro e da filosofia, que dificilmente se pode formar nos dias de hoje. Entre os professores fundadores estão Athos Bulcão, Alfredo Ceschiatti, Glênio Bianchetti, José Zanini e Rogério Duprat. Também estão nesse primeiro quadro nomes como os de Nelson Pereira dos Santos, Décio Pignatari, Aracy Amaral, Rubem Valentim e Odette Ernest Dias.

Professores que virão mais tarde e serão também determinantes da vida cultural da cidade: Paulo Emílio Salles Gomes, Vladimir Carvalho, Jorge Antunes e Rogério Costa Rodrigues. Este último, diria numa frase lapidar que, nos anos 60, “em Brasília bastava abrir uma barraquinha de pipoca que aquilo se constituía num evento’. Espaços como a Escola-Parque da 508 Sul, o Cine-Teatro Cultura, começam a surgir. Artistas que logo sairão de Brasília, com novas idéias e obras: Cildo Meirelles, Guilheme Vaz, Luiz Ácquila e Regina Miranda.

Mais no final dos anos 60, aparecem grupos musicais, grupos de teatro amador, grupos de escritores e artistas plásticos, trocando idéias, fundando os primeiros ateliês, fazendo experiências mais locais e pontuais, como a experiência de teatro no Colégio Objetivo, com Laís Aderne, as sessões de teatro de segunda-feira, na Martins Pena, organizadas por João Antônio. Grupos alternativos como A Tribo, as bandas de rock Margem e Tellah, e já no final dos anos 70, a Galeria Cabeças, que escancara o charme discreto da cidade com shows e espetáculos ao ar livre, inicialmente nas quadras e praças, depois no Parque da Cidade.

Anos 60, implantação e perplexidade. Anos 70, impossibilidade e viagens. Anos 80, solidão e invenções. Anos 90, afirmação e manutenção. Século 21, primeira década, revelação e expectativas.

Em 1987, a Unesco concede a Brasília o título de Patrimônio Cultural da Humanidade e em 2008 foi a capital americana da cultura.


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