Eu sem mim

 

Tranquei meu eu dentro de mim

E não joguei a chave fora, ainda.

Tranquei para protegê-lo

Como em útero prenhe de vida nova

Meu eu, meu cristal delicado

Que por vezes foi estilhaçado

Por rajadas verbais e plurais

Agora está encarcerado aqui

No fundo, mas tão no fundo

Que ele nada ouve, vê ou sente

Também não posso mais ouvi-lo.

Então saio para a rua, esbarrando

Contracenando com figurantes de si

Assim como eu, sem meu eu

As pessoas estão presas

Trancafiadas em seus corpos

Protegendo-se do cenário e do enredo

Que elas mesmas teceram

E entristeceram… murcharam

Picharam o amor

Andam brincando de lego

com o amor alheio.

Tai, qualquer dia desses crio coragem

E liberto meu eu

 Quero vê-lo voltando  

Se aproximando todo cheio de si.

Ao me abraçar poros a dentro

Seriamos um só novamente

E voltaríamos para o fundo do peito

Só que, dessa vez, do peito

de um bem-quer.

 

 

Marina Mara