É proibido fumar

Entre a comédia romântica, o humor negro e a angústia, É proibido fumar, com os desdobramentos que apresenta e o final relativamente bem urdido, é uma defesa tão comovente quanto desconcertante do direito à felicidade de quem parece ter como sina passar pela vida despercebido.
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Anna Muylaert faz, pelo menos na primeira metade de seu É proibido fumar, o cinema das vidas comuns, seguindo a linha que já apresentara em Durval Discos, um dos filmes mais simpáticos da história recente do cinema brasileiro.

Na trama, Baby é uma professora de violão para iniciantes, vivida por Glória Pires numa linha naturalista trazida da TV que se encaixa bem na proposta do filme. Baby é mulher de vida pequena e sem brilho, uma típica habitante solitária de apartamentos antigos e mofados dos bairros de classe média baixa das grandes cidades brasileiras. Para descarregar as frustrações, ela conta com a fumaça do cigarro; para tentar recuperar a esperança dos tempos da infância, luta pelo sofá de uma tia morta que está no apartamento da irmã melhor sucedida.

Esse leve desespero dura até o aparecimento de seu novo vizinho, o músico de churrascaria Max (Paulo Miklos), um doce rebelde vindo diretamente dos anos 70, que vai levar Baby a, entre outras tentativas de se tornar uma pessoa melhor, tentar largar o cigarro. Agarrada à promessa de felicidade trazida por Max, Baby vai se meter numa série de confusões, algumas delas sinistras. Para narrar essa história, É proibido fumar vai deixando aos poucos o registro de comédia romântica inicial e, sem que a diretora perca a mão, assume ares sombrios, porém sem perder o humor.

Em todo esse percurso, ressalta na tela o profundo labor que a diretora/roteirista aplicou ao filme. Os planos são complexos, o roteiro é estruturado com precisão – ainda que os diálogos sejam eventualmente toscos em excesso – e as atuações são convincentes. Paulo Mikos se vale de sua – para usar um termo teatral – máscara facial única para compor um Max desencanado mas, no fundo, tão solitário e desprovido de brilho quanto Baby.

Entre a comédia romântica, o humor negro e a angústia, É proibido fumar, com os desdobramentos que apresenta e o final relativamente bem urdido, é uma defesa tão comovente quanto desconcertante do direito à felicidade de quem parece ter como sina passar pela vida despercebido.

Em tempo: como atração extra, o filme traz homenagens à música dos anos 60 e 70 e participações de Paulo César Pereio, Marisa Orth, Pitty, Antonio Abujamra e, impagável na pele de um corretor que “narra o apartamento”, Lourenço Mutarelli.

 

Título original: É proibido fumar

Genero: Comédia

Ano de Produção: 2008

País de Produção: Brasil

Duração: 86 min

Diretor: Anna Muylaert

Elenco: Gloria Pires, Paulo Miklos,  Antonio Abujamra

Roteiro: Anna Muylaert

Fotografia: Jacob Solitrenick

Trilha: Márcio Nigro

Distribuidora local: PlayArte


YouTube Direkt

Fonte: cinema.com.br

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