Projeto Oficina Tela Brasil chega ao Cerrado

Projeto de Laís Bodansky e Luiz Bolognesi incentiva 20 jovens brasilienses a repensar o cinema.

Colecionador de histórias, o roteirista Luiz Bolognesi (Chega de saudade, Bicho de sete cabeças) recorda os primeiros passos profissionais com a emoção de quem revive o momento ao observar jovens que têm seu primeiro contato com um set. “Eles não se apaixonam pelo glamour, mas pela possibilidade de expressão que a telona oferece. E os olhos brilham”, conta a respeito dos curtas produzidos em comunidades carentes durante as Oficinas Tela Brasil. O projeto, que o cineasta encabeça ao lado de Laís Bodanzky, é realizado em 25 cidades e teve sua primeira edição em Brasília nesta semana.

Com o objetivo de levar os bastidores de uma produção cinematográfica a jovens de baixo poder aquisitivo, o Tela Brasil realiza, desde 2007, oficinas relâmpagos sobre roteiro, som , trilha, fotografia e direção, e incentiva os alunos a contarem suas histórias por meio dos recursos audiovisuais. Em cada cidade, são selecionadas até 25 pessoas com idade a partir de 16 anos, divididas em três grupos com a responsabilidade de, ao fim de 15 dias, roteirizar, filmar, editar e apresentar curtas-metragem.

O projeto tem na sensibilização dos envolvidos sua faísca, que explode nos produtos finais. Projetadas, as histórias versam sobre afeto, sonhos, namoro, desencontros, desejo, angústia, doença, afastando-se do clichê rua-tráfico-assassinato abordado pelos filmões que exploram essa realidade.

Patrocinada por entidades privadas, a edição deste ano é composta por 25 oficinas em todo o país, cada uma com três curtas a serem realizados com equipamentos oferecidos pela Buriti Filmes, produtora de Bolognesi e Bodanzky. Ao todo, 115 curtas foram finalizados em dois anos de Tela Brasil, alguns selecionados e premiados em festivais. É o caso dos documentários Primaveras (Prêmio Primeiro Olhar na mostra Visorama do Festival Visões Periféricas, no Rio de Janeiro) e Tia Dita: no raiar da aurora (Prêmio CinePró no Festival de Curtas de São Paulo).

As filmagens ocupam a menor parte do cronograma da edição candanga: três dias. As aulas que precedem as filmagens servem de base para a finalização: durante oito horas diárias, orientadores e alunos descartam a idolatria ao cinema para analisá-lo sob argumentos críticos, o que Bolognesi chama de “pequena revolução”. “Vemos o produto audiovisual como ferramenta estratégica de poder. O Brasil é dominado pelo imaginário da novela e as pessoas consomem aquilo como verdade. É preciso educar o povo para uma cultura crítica da sociedade”, afirma.

A iniciativa resulta do Cine Mambembe, cinema itinerante idealizado pela dupla de cineastas em 1994 que levou a projeção de filmes nacionais a espaços populares e regiões com pouco acesso à sétima arte. O Mambembe se transformou em 2004 no Cine Tela Brasil, um caminhão equipado com um circo de lona no formato de sala de cinema, e agora renasce com as pequenas produções.

Novos cineastas

Desde o dia 10, a rotina do Centro Educacional 7 de Taguatinga se transformou com a chegada da equipe da Associação Tela Brasil. Se fosse formada apenas por uma produtora, três educadores e um orientador pedagógico, integrantes da Buriti Filmes que participam do projeto, o grupo não seria tão significativo. Mas as salas da aula foram ocupadas, em plenas férias, pelos 20 jovens selecionados pelo projeto, equipamentos de filmagens e três ilhas de edição configuradas com softwares profissionais para captação e edição de imagem.

Do grupo, saem três curtas a serem apresentados hoje no Cinemark do Taguatinga Shopping, a partir de 10h30, em sessão gratuita. “A oportunidade é sensacional. Todos os dias minha mãe vê que eu chego em casa à meia noite e fica preocupada. Ela vai poder ver no telão que é um trabalho sério, que envolve aprendizado”, acredita a aluna Thaísa Raiane, que participou do curta de ficção (ainda sem nome) sobre a rotina de um travesti em busca de emprego.

“As histórias são extremamente genuínas porque saíram da vida dos garotos. Isso leva as minorias às telas e aborda novos universos sem sensacionalismo, mas de forma intensa e verdadeira”, declara o cineasta Edu Abad (Sonata para Orquestra Mágica), que participa da oficina como coordenador pedagógico. Os outros filmes, um documentário e uma ficção, abordam, respectivamente, o mito do Calango Voador, criado pelo grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, e a viagem no tempo de um dos pioneiros da construção de Brasília.

Set profissional

Após aulas sobre ferramentas e hierarquia no set, os alunos saem à rua com uma câmera DV (digital vídeo), um microfone direcional, tripé e rebatedor de luz. A criatividade é incentivada, desde que não ultrapasse duas horas de gravação. Os curtas são editados para ter, em média, dez minutos.

Fonte: Correio Braziliense


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