Livro retrata Mazzaropi, um mito do humor brasileiro

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Assim como grande parte dos comediantes brasileiros, Amácio Mazzaropi sentiu na pele o desprezo da crítica que sempre olhou com desdém o humor. É um estigma que acompanha a classe há tempos atingido como um soco direto nomes como Ankito, Oscarito, Grande Otelo e Os Trapalhões, trupe comandada por Renato Aragão nas décadas de 1970 e 1980. Mas todos, sem exceção, tiveram como consolo o amor incondicional do público, que abraçou o talento singular de cada um. Não seria diferente com o velho Mazza, que tem sua trajetória resgatada com o livro Mazzaropi – Uma antologia de risos, projeto que acaba de ser lançado pela Imprensa Oficial, dentro da coleção Aplauso.

“Dei o nome de Antologia de risos ao meu livro, porque acredito que o legado que Mazzaropi deixou com seus filmes, é o legado da alegria. O riso, a satisfação popular”, acredita o diretor de televisão e cinema, roteirista, produtor, escritor e músico Paulo Duarte. “Ele era amado pelo povo e me parece normal que fosse desprezado pela crítica que não conseguia enxergar além das camadas superficiais em seus filmes e por uma parte dos cineastas brasileiros que não conseguiam falar a língua do povo como ele”, critica Duarte, também um dos responsáveis pelo lançamento em DVD dos filmes do artista. Foram ao todo 34 títulos produzido ao longo de 29 anos.

“Costumo dizer que fui o cara certo na hora e nos lugares certos, pois além do interesse normal pela história do Mazzaropi, tive o privilégio de ter contato com as pessoas que detinham os direitos sobre seus filmes e fui o centralizador do interesse dessas pessoas sobre a exploração das obras dele, de maneira que posso dizer que aproveitei isso a favor da preservação da obra do artista”, destaca o autor. “Na ocasião não tínhamos nenhuma foto do Mazza e nem havíamos mapeado os verdadeiros detentores de seus filmes”, lembra.

O trabalho de 340 páginas, uma edição especial no formato, já que, tradicionalmente, os demais lançamentos da Imprensa Oficial são em pocket, conta com um valioso trabalho iconográfico, além, é claro, acompanhado de textos que narram sua trajetória no teatro, nos rádios, cinema e televisão. Mazzaropi tem presença garantida também em trabalhos que comentam algumas produções suas. “No início, diziam que eu fazia um caipira estilizado. Não é estilizado, não. Eles que não têm conhecimento da realidade brasileira”, comentou o comediante, referindo-se à caracterização do personagem criado por Monteiro Lobato em Urupês, e levado por Mazzaropi às telas em 1959. “O Jeca do Mazzaropi era um caipira em fase de transição para os tempos modernos, não em conflito, mas em adaptação a um novo mundo e as transformações da sociedade. Abria uma discussão para assuntos polêmicos, como divórcio (A banda das velhas virgens), preconceito racial (Jeca e seu filho preto), sincretismo religioso (O Jeca macumbeiro) entre outros assuntos”, analisa Paulo Duarte.

Para aqueles que sustentam o discurso de que o artista era dono de uma cinematografia simplória, quase monotemática, destituída de ousadias estéticas, o autor defende. “Acredito que ele desenvolveu uma “fórmula de sucesso” que deu certo o tempo todo. Como homem de negócio, preferiu seguir o dito popular onde ‘time que está ganhando não se mexe’”, rebate.

Fascinação

Filho de imigrantes italianos, como o próprio sobrenome acusa, Mazzaropi, nascido na grande São Paulo, demonstrou interesse para às artes ainda criança, ao se encantar vendo o avô tocar viola em público. “Ele ficou fascinado com o poder que uma pessoa podia ter em cima do palco. Dali não demorou muito para que ensaiasse e, mais tarde, com o consentimento dos pais, a dar início à carreira”, detalha Duarte. As primeiras apresentações foram pelo interior paulista, em pavilhões improvisados como teatro. Mais tarde, seguiu para o circo, escola que o levou ao teatro profissional. A próxima etapa seria o rádio, onde faria o programa Rancho alegre. “Programa que depois teve sua versão na tevê. Aliás, esse programa registrou pela primeira vez a estreia de um comediante na televisão. Portanto, Mazzaropi é o patrono dos cômicos da tevê”, chama atenção Duarte.

O cinema seria um caminho natural e o primeiro projeto viria em 1952, na Vera Cruz, com Sai da frente. Depois de três projetos na mítica companhia e mais quatro filmes pela Cinedistri, resolve vender tudo que conquistou até então na vida para produzir em 1959 Chofer de praça. “O risco foi motivado depois que ele observou que seus filmes formavam enormes filas”, comenta Dutra. “Chofer de praça foi o primeiro filme auto bancado, se ele tivesse dado errado, Mazzaropi provavelmente não teria continuado no cinema e sido fenômeno que foi”, aposta.

O ótimo desempenho do filme de estreia lhe deu estabilidade financeira para montar a PAM Filmes (Produções Amácio Mazzaropi), empresa que produziu outros 24 projetos para o cinema, todos grande sucessos nas bilheterias como Tristeza do Jeca (1961), O corintiano (1966), Betão Ronca Ferro (1970) e Portugal, minha cidade (1974).

Empreendedor e astuto administrador, dá início um ano depois, em Taubaté (SP), na construção de um enorme complexo cinematográfico que abriga locações, cenários, estúdio, além de hotel para os artistas do elenco de suas produções. “Em um país que até hoje se esmera em criar uma utópica indústria do cinema e não consegue, Mazzaropi foi o único que conseguiu criar isso na prática. Ele fazia com que um filme bancasse a produção do outro, ou seja, tinha um modelo de negócio sustentável, não dependia do governo. Desta maneira mostrou que realmente era um ótimo administrador já que tudo girava em torno de seus próprios projetos”, destaca.

Fonte: Correio Braziliense

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