A Arte de enxergar a Arte

Quando abrimos uma revista ou acessamos um sítio especializado em cultura e arte, esperamos (como via de regra) encontrar matérias sobre exposições, novos artistas da esfera contemporânea, o anúncio de festivais relevantes da cena cultural, entre outros assuntos de grande valor agregador à nossa intelectualidade e nosso espírito.

Porém, este texto é dedicado a outra arte: a de enxergar arte no quotidiano, por onde, geralmente, passamos com tanta pressa que verdadeiras exposições artísticas ao ar livre vão – infelizmente – ficando para trás.

Eixo Monumental, 08h10min, 18h01min. Atenção! Olha o sinal, olha o pardal, olha o protesto, olha o… já passou. Os carros carregando habitantes do Patrimônio Cultural da Humanidade vêm e vão cada vez mais l..e..n..t..o..s. Eles acotovelam-se pela parcela de asfalto que lhes é de direito e por vagas nos estacionamentos nada planejados. E assim passam as segundas, as sextas…

Um fato que me alertou para a existência de minha “cegueira quotidiana” foi a feliz visita de uma fotógrafa de Londres, Hannah Taylor, especializada em fotografar arquitetura pelo mundo a fora. Ela precisava de uma intérprete e guia para auxiliá-la em sua missão de retratar Brasília com sua parafernália pra lá de moderna. Como foi um pedido feito por uma amiga muito especial que temos em comum, não pude negar. Estava eu ali, no meu primeiro dia de trabalho como guia e intérprete de Hannah.

As sessões fotográficas eram nos horários mais inusitados. Ao aceitar o convite, pensei em mostrar o pôr-do-sol-cor-de-rosa, a Catedral iluminada, a lua cheia riscando o Lago Paranoá. Foi aí, então, que fui surpreendida pelos verdes olhos que se esgueiravam por detrás daquelas lentes. Eu nem percebia quão clichê estava sendo. Quando a concentração “pré-flash” quase cirúrgica cedia lugar a um bate-papo, falávamos sobre livros, viagens, filmes e sobre a vida. E foi então que comecei a ver a minha cidade com olhos menos viciados e, por conseguinte, a desenvolver uma admiração pela, então amiga, Hannah Taylor.

Eu nunca havia contemplado, por exemplo, a Catedral Rainha da Paz no meio da madrugada em pleno Eixo Monumental ao som da trilha sonora do silêncio. Sabiam que após uma chuva, as gotículas dão um brilho digno de efeitos especiais ao verde que encarpeta a Cidade? E que há uma praça de pedras meio grega, meio Stonehenge, escondida em frente ao Quartel General do Exército? E o balé simétrico das palmeiras no espelho d´agua do Congresso à noite, já assistiram? Quem já deu uma volta completa – a pé – em torno do Congresso Nacional? A cada passo as retas e as curvas vão se fundindo e nos confundindo.

Ao final dos dez dias do novo ofício, não conseguia mais ficar imune às sutilezas que a correria do dia a dia escondeu de mim por tantos anos. Tanto é verdade que estou, neste momento, contemplando a Praça dos Três Poderes, sentada em um banco improvisado, acompanhada de um velho bloco de anotações e uma caneta, tentando finalizar este texto.

Ao contrário do best-seller do “Mago Brasileiro da Ilha de Caras”, não precisei viajar o mundo em busca de um tesouro e ao final descobrir que ele estava aqui. Os claros olhos daquela nova amiga que veio de tão longe haviam feito isso por mim.

 

Marina Mara


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RSS dos comentários TrackBack 2 comentários

Vani

em 12 de setembro de 2009

Guria, muito bom o teu texto! Realmente ser clichê é mais fácil …
Olhar o mundo com outros olhos e por outros ângulos faz a diferença…
E viva a sensibilidade!!!
Bj


Maria Laura

em 23 de janeiro de 2010

Sorte sua a Hannah ter cruzado seu caminho, tornando seu ‘insight’ mais cedo do que tarde. Afinal, a beleza realmente está nos olhos do observador.