Assista ao curta-metragem brasiliense sobre O Mito do Calango Voador
Por meio do projeto Oficina Tela Brasil, que pelas capitais do país produziu uma série de curtas-metragens, tive o prazer de compor a equipe que produziu o curta O Mito do Calango Voador Contra a Criatura Comedora de Homens. O projeto conta com o apoio do Ministério da Cultura, Buriti Filmes, Ciarticum e Terra Vermelha entre outros parceiros. O filme tem como pano de fundo a valorização do Cerrado contada e cantada pelo grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, que criou o Mito do Calango Voador para ser um identificador cultural de Brasília. Por sua forte atuação no cenário popular da cidade, o Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro foi premiado pelo Ministério da Cultura em 2007 como grupo de destaque na cultura popular tradicional.
No Curta, por meio dos batuques de Seu Estrelo, é contada a história da Criatura Comedora de Homens, que representa o excesso de cimento e aquecimento em Gaia, nossa mãe-terra do Cerrado.
Conhecendo o Mito
Antes mesmo que o povo além-mar chegasse ao Cerrado, os raios de sol penetraram seu solo e plantaram, entre a aurora e o crepúsculo, uma semente bem no bucho da terra. E foi dessa união de astros que nasceu o Calango Voador. Que até os dias atuais dá rasantes por entre os Eixos da nova capital, de asa a asa, de norte a sul.
Certo dia, o bicho de asas, que já nasceu mito, vê sua mãe-terra chorando por perder suas verdes madeixas amputadas à motosserra pelas mãos da Criatura Comedora de Homens que solta fumaça, devora a mata e vomita concreto, sepultando Gaia, Pacha Mamma, a Mãe-natureza, chame como quiser.
Mas esse Calango, nascido lá pelas bandas do Planalto Central, descobre um poderosos aliado. Seu Estrelo. Gerado em um tronco de árvore, Seu Estrelo, filho de Laiá e do Rio, conhecido como protetor do seco solo do Cerrado, num ato heróico, abre o bucho da terra, mãe do Calango Voador, e lá se planta. E como mágica, faz brotar ali uma árvore de estrelas.
Reza a lenda daquele lugar que quem comer de seu fruto estrelado terá a alma protegida de tudo o que for triste, sem som e sem cor. E a partir de então terá o coração ritmado como zabumba e os olhos brilhantes como estrelas para enxergar além do concreto e do ouro que cega e compra o homem.
Formou-se então um exército de comedores de estrelas. Esses ganharam o poder de perambular, em segurança, pela Criatura Comedora de Homens que já não têm tempo para sonhar, cantar e dançar. Mas porque esses guerreiros se aproximariam da Criatura cinza? Ecoa no Cerrado que seria para deixá-la menos triste e pintá-la com sete cores e sete notas musicais para que, de forma sutil, os homens reaprendessem a dançar, cantar e sonhar.
Até hoje, ao entardecer, olhos atentos fitam o céu da cidade em forma de avião, a espera da noite que traz estrelas cadentes que mergulham no Cerrado, dizem que não são astros, mas algum guerreiro que veio se juntar aos comedores de estrelas para combater a Criatura com sua arma mais poderosa – a alegria do som dos tambores que ecoa no peito de seu exército. Alguns desses guerreiros se juntaram aqui no terreiro do Cerrado e trouxeram, como armamento, diferentes sons, cantos e encantos. E lá, no fuá do terreiro, reverenciando Seu Estrelo, espalham sorrisos brincantes que fazem brotar o verde no Cerrado e a alegria nos corações dos habitantes do Planalto Central.
Dizem que, em algumas noite de lua cheia, o Calango Voador pega carona nos raios lunares e desce até o Cerrado para alegrar os comedores de estrelas com os seus versos ritmados pelo samba pisado. E na última vez que desceu, trazendo uma Caliandra em sua lapela, o Calango Voador fez versos sobre sua nova morada, a Celestina, que não se sabe bem onde fica, mas sabe-se que de lá ele consegue sentir o cheiro da terra molhada do Cerrado quando chove. Os versos eram mais ou menos assim:
Os habitantes da Criatura traziam pedras nas mãos
Assim, os falsos irmãos, pelo meu pecado de cantar
Vieram a me calar lançando então a primeira
Mas somente a derradeira que alguém jogou
Me libertou ao cair sobre minha corrente
E como minha mente, um elo se abriu
E fugiu minha calanga essência para a Celestina
Uma cortina entre o Cerrado e o luar
O meu lar, onde minhas batucadas gorjeiam
Onde meu olhos chovem e fazem brotar beleza
E a mãe natureza me dá colo para nanar
De dia me visto de mar, à noite me visto de lua
Mas prefiro a alma nua, é melhor para voar.
Por, Marina Mara



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