A poesia de Manoel de Barros em filme
Um filme realizado a partir do encantamento do diretor Pedro Cezar pela obra de Manoel de Barros que contagia o espectador sem cair num mero relato apaixonado. E, também, sem deixar que apenas a narrativa analítica tome conta do documentário. Já que a poesia não tem a função de investigar a verdade, como define Manoel de Barros, o documentário também não. A obra de Pedro Cezar mergulha fundo e com grande sensibilidade nas invenções do poeta.
“Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”, a notória frase de Manoel de Barros, foi a inspiração para nomear o filme. Mesmo sabendo que, entre invenções e mentiras, nada teria de verdade, Pedro Cezar não desistiu de entrevistar o escritor. A partir da entrevista com o poeta e com artistas ligados à obra, saiu a interessantíssima “desbiografia” para os cinemas de Manoel de Barros, tão poética quanto o poeta.
Só dez por cento é mentira ultrapassa a fronteira de mero informativo para os interessados na obra do escritor e se torna algo simpático para os admiradores da poesia, do pensamento, da imaginação, do humano e da escrita. As imagens do filme não se prendem à figura de Manoel de Barros ou dos outros entrevistados, mas também são construídas no documentário. Desenhos e cenas se formam junto às frases do poeta, ampliando ideias contidas na escrita e trazendo o universo imagético de Manoel de Barros para as telas.
O documentário exibe falas do próprio Manoel de Barros em entrevista, além de depoimentos de atores, escritores, mulher e filho de Manoel de Barros e cineastas, como Joel Pizzini, que dirigiu o curta-metragem Caramujo-flor (1988) sobre o poeta. Nos depoimentos, é possível conhecer curiosidades como um empregado da fazenda de Manoel de Barros que é um verdadeiro inventor de palavras, utilizadas pelo poeta. Assim como seu filho João de Barros, durante a infância, inspirou poemas de Manoel de Barros, que observava cuidadosamente o lado lúdico da criança. Aliás, foi a própria fazenda de Manoel de Barros que permitiu que o escritor se tornasse um “vagabundo profissional”, como ele mesmo define o ofício de ser poeta em tempo integral.
Assim, o filme sai do tradicional relato técnico e detalhado da biografia e, junto às invenções e irreverências de Manoel de Barros, reinventa-se também. Se o poeta afirma no filme que a poesia não serve para nada além da própria poesia, talvez sua obra tenha mesmo é contaminado as telas para uma produção poética e cheia de humanidades esquecidas por aí. É um filme para ser sentido.
Fonte: cinema.com.br
Date: 22 de janeiro de 2010
Categorias: Cinema



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