Paulo Francis nas telonas

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Ácido, incisivo, polêmico, Paulo Francis dedicou sua carreira profissional a atacar, contra-atacar ou defender, com altas doses de radicalismo, teses e certezas duvidosas. Nesse ofício, logicamente, despertou o desafeto de muitos, muitos mesmo, que o julgavam arrogante, controverso e pedante – mas não menos que brilhante. Não é essa faceta que se vê em Caro Francis, que a começar pelo título, compõe um documentário explicitamente favorável ao polemista. A ironia, as frases de efeito e a presunção estão lá, mas na ótica afetiva de Nelson Hoineff, amigo de longa data de Francis. O trunfo é assumir a postura controversa do jornalista – ao cutucar as desavenças, repetir os impropérios e desatar os nós da vida de Francis, cuja figura pitoresca consegue dessa vez arrebatar com facilidade a simpatia do público.

Em Alô, alô Terezinha, documentário em que explora a vida de Chacrinha, Hoineff já renovara o gênero, mas parece ter sido ainda mais bem-sucedido nesse tento, ao livrar-se das amarras cronológicas. Ao fugir do formato por vezes engessado, o diretor assume a postura de que não cabe ao cineasta – nem mesmo ao documentarista – a imparcialidade. A figura polêmica é evocada com o carinho e o saudosismo do reconhecimento, passados 12 anos de sua morte. Caro Francis, contudo, não carece de espaços a serem preenchidos pelo espectador e estrutura-se como um discurso aberto, mérito de um diretor pensante. Ao relembrar os episódios mais polêmicos do jornalista, Hoineff delega ao espectador a opção de julgar Francis como um profissional de muitos erros, por vezes antiético. O exagero das tintas predomina como parte do mito, sem eximi-lo de nada, exponenciando o carisma do rico personagem que tem em mãos.

Entre os pontos altos — corre por fora a cena da declaração de Sergio Augusto com o cachorro no canto do sofá — estão os depoimentos do ex-ombudsman da Folha de S. Paulo Caio Túlio Costa, que incitou a saída de Francis do jornal, entrecortado pelas opiniões de Diogo Mainardi; o silêncio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, indagado sobre a ação da Petrobras no valor de US$ 100 milhões movida contra o jornalista; a declaração de admiração do ex-ministro da Fazenda Gustavo Krause, tachado por Francis de provinciano e “jeca”. Fernanda Montenegro, Boris Casoy, Fausto Wolf, Nelson Motta, Diogo Mainardi e Daniel Piza são outros que ajoelham para as lentes de Hoineff.

O completo êxito de Caro Francis esbarra justamente no excesso de emoção. Ao falar sobre a morte do jornalista, assunto que poderia muito bem não ter sido tão aprofundado, o afeto fala alto. O embananamento começa com a exposição constrangedora do choro copioso da viúva Sonia Nolasco, passa pelo depoimento risível do médico Jesus Cheda, acusado de errar o diagnóstico, e culmina com Mainardi proferindo: “Eles mataram o Francis!”. Paulo Francis nunca foi unanimidade, e um filme sobre sua pessoa não poderia ser diferente. Mas Hoineff humaniza o mito e faz um retrato generoso do jornalista.

Fonte: cinema.com.br

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RSS dos comentários TrackBack 2 comentários

Nelson Hoineff

em 23 de janeiro de 2010

Marina: obrigado pela precisa leitura do filme e pelos generosos comentários.


mmara

em 24 de janeiro de 2010

Olá Nelson, tudo zen?

Fiquei feliz por sua visita em meu sítio http://www.marinamara.com.br, porém, o texto não é meu, o retirei do cinema.com.br. Sou fã do Paulo Francis, só isso já seria motivo para a publicação, porém, vi que se trata de um filme muito interessante…tô doidinha pra ver, rs.

Sucesso amigo,
MM