Exposição três em um

Exposições na Caixa Cultural mostram gravuras de Rossini Perez, fotos de João Roberto Ripper e obras da Coleção Brasília

Direitos humanos, história da gravura e arte brasiliense marcam as três exposições que a Caixa Cultural está mostrando. Na Galeria Principal, a maior do espaço, o gravador Rossini Perez faz retrospectiva de mais de três décadas de gravuras, com obras realizadas entre 1955 e 1980, um conjunto doado pelo próprio artista ao Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (MNBA/RJ) e reunido pela curadora Laura Abreu.

Perez se inscreve na história da gravura brasileira ao lado de nomes como Oswaldo Goeldi, Fayga Ostrower e Renina Katz, todos amigos, todos influências muito fortes e referências eternas para o artista de origem espanhola nascido no Rio Grande do Norte. Perez era um jovem pintor quando entrou no ateliê de Oswaldo Goeldi e percebeu o quanto podia resolver com a gravura o que não conseguia organizar com a pintura. “A gravura tem um lado de habilidade manual, exige muita habilidade. Não era minha praia misturar tintas, tinha dificuldade. Era amigo do Goeldi, mas não me interessava por gravura. Um dia fui ao ateliê e o vi gravando. Achei que aquela solução em preto e branco era melhor para mim. Essa parte artesanal de cavar a madeira (xilogravura) me encantou e passei a fazer”, lembra.

Fayga Ostrower, pioneira da gravura abstrata no Brasil, ajudou a reforçar a descoberta e Perez foi adiante. Nunca estacionou em uma única linguagem e passou da abstração à figuração e até à geometria com sede de experimentar. As 89 obras de Rossini Perez: desenhos, matrizes e gravuras — Acervo do Museu Nacional de Belas Artes deixam claro o vasto espectro de formas e cores explorados pelo artista, que esteve várias vezes em Brasília e foi responsável pela reabertura do ateliê de gravação da Universidade de Brasília (UnB), em 1974. “Fiquei aqui uns seis meses, a oficina estava fechada e fui chamado para reabri-la. No ano seguinte ia fazer a mesma coisa na 508 Sul, mas não deu muito certo.”

Alguns meses depois, Perez embarcou para Dakar (Senegal), a convite do Ministério das Relações Exteriores, para abrir ateliê em universidade senegalesa. De lá trouxe influências que nortearam uma parte da produção dos anos 1980. Se as favelas do Rio de Janeiro haviam fornecido material geométrico para investigar a divisão dos espaços na superfície do papel, a África deu ao artista novos conteúdos sobre os quais refletir. “Foram muitas as influências, mas principalmente a religião, o comportamento social, a relação com o tempo e as imagens históricas. Cheguei até a fazer braceletes para complementar a gravura”, diz o artista, hoje com 78 anos.

Fotografia social

Nas galerias Piccola 1 e Piccola 2, o fotógrafo João Roberto Ripper, 56 anos, assina as 70 imagens em preto e branco concebidas para revelar um Brasil particular. Desde os 19 anos, Ripper aponta as lentes para um objeto nem sempre protagonista das paisagens humanas brasileiras. “Minha proposta fundamental é colocar a fotografia a serviço dos direitos humanos e incentivar que outros fotógrafos também possam engajar seus trabalhos. Todo o meu escritório está na favela da Maré”, diz o fotógrafo, que fundou uma escola para profissionalizar jovens nas favelas do Rio de Janeiro e pretende fazer um grande registro das populações desfavorecidas do Brasil com o projeto Imagens humanas.

Há 12 anos, o arquivo de Ripper contava com 140 mil imagens. Hoje, ele estima haver o dobro. “Todas as fotos que faço são de contextos sociais com os quais me envolvo, mas busco uma linha condutora, que é da dignidade. Na exposição, com curadoria do Dante Gastaldoni, que coordena comigo a escola da favela, tecemos uma concepção onde se entra pela emoção. Mostro a questão do amor que existe em todos, a solidariedade, a dor, a resistência. São sentimentos e ações que essas pessoas fazem e têm no correr de suas vidas”, avisa Ripper. “Meu trabalho é um contraponto. Todas as pessoas têm sonhos e traduzem isso em cultura ou em comunicação, informação. Acho que existe um controle nos poderes da sociedade onde esse sonho é filtrado. Busco, além da denúncia, a beleza de quem vive numa favela porque estamos censurando a mostragem do belo nas áreas onde moram as pessoas menos favorecidas desse país. Os julgamentos jogados para a sociedade são uma indução à condenação dessas pessoas. Essas pessoas são bonitas, sensuais e tento mostrar isso através de uma situação, às vezes, de dor.”

Reservada para o acervo da própria Caixa, a Galeria Acervo recebe a Coleção Brasília, adquirida em 1987 e integrada exclusivamente por artistas que moram ou produziram na capital nas últimas duas décadas.

Três exposições

Rossini Perez: desenhos, matrizes e gravuras — Acervo do Museu Nacional de Belas Artes

Obras do gravador Rossini Perez. Visitação até 28 de fevereiro, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural (SBS Q. 4, anexo do edifício Matriz Caixa

Imagens humanas

Fotografias de João Roberto Ripper. Visitação até 28 de fevereiro, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural (SBS Q. 4, anexo do edifício Matriz Caixa

Coleção Brasília

Com obras de 49 artistas. Visitação até 14 de março, de terça a domingo, das 9h às 21h, na Caixa Cultural (SBS Q. 4, anexo do edifício Matriz Caixa

Fonte: Correio Braziliense


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