Crítica do filme O Lobisomem
O Lobisomen – Por, Rodrigo Fernandes
Terror ou terrir?
Receita para um filme de terror: pegue um protagonista complexado, junte uma mocinha indefesa, acrescente um ator vitoriano e um policial implacável. Deixe a massa descansar depois polvilhe efeitos especiais de primeira, a gosto. Gratine uma velha e misteriosa cigana, em seguida unte a fôrma com uma reconstituição de época convincente e leve ao forno pré-aquecido por uma trilha sonora do Danny Elfman e voilá! Temos nosso filme de terror. Mas, será?
Se há algum mérito em O Lobisomem é justamente o de não cair na tentação de reinventar a roda. Até um malabarista de sinal sabe que Hollywood padece de uma crise criativa das mais crônicas, pois nada mais natural que, de vez em quando, sacar de um de seus monstros sagrados. Vivem fazendo isso e não há problema algum. Trágico é quando tentam modernizar demais o mito. Dou exemplo: quem vai levar os vampiros a sério depois dessa masturbação teen chamada Crepúsculo? O negócio pode ser lucrativo e fazer a alegria de adolescentes bobocas, mas…
Pois O Lobisomem permanece num sensato meio-termo. Usa e abusa de efeitos digitais, mas mantém a atmosfera clássica. Nada que empolgue os puristas, mas que também não vai tirar o sono dos amantes do gênero. Resumindo, o filme do diretor Joe Johnston é uma besteira, mas uma besteira bem feita, divertida até. É claro que tudo é muito óbvio. Na velha Londres – onde mais? – o irmão do protagonista, Lawrence Talbot (Benício Del Toro, meio deslocado) é encontrado num bosque, dilacerado por algo, de volta a casa do pai (Anthony Hopkins, competente e arrastando as palavras, como sempre) ele vai ter que enfrentar muito mais do que a maldição que lhe espera. Seu próprio pai guarda segredos que vão se revelar terríveis. É claro que estou exagerando no mistério. O diretor não sabe segurar o segredo até o clímax do filme. Em cinco minutos de exibição você já sabe que Del Toro vai virar o lobisomem do título, que seu pai também é um coisa-ruim e que tudo vai terminar pelas mãos da mocinha (Emily Blunt). Os clichês vão se empilhando, como, por exemplo, o investigador de Hugo Weaving e a cigana interpretada por Geraldine Chaplin. Personagens recorrentes em qualquer filme de suspense.
Johnston ainda tenta passar algumas sutilezas, como a profissão do protagonista que encena peças shakespearianas numa alusão à relação conturbada que mantém com seu pai. O visual do filme também tem uma referência interessante e nos remete aos filmes da lendária produtora inglesa Hammer. Sendo, porém, a fonte principal, o pai de todos os filmes bacanas de lobisomem, o clássico O Lobisomem filmado em 1941 por George Waggner e com Leo Chaney Jr. no pêlo do homem-lobo. Um pouco menos de citações talvez deixasse o filme menos previsível e algo assustador. Até por que, convenhamos, susto mesmo, daqueles de fazer pular da poltrona não há nenhum. Ao contrário, a plateia não parava de rir em várias cenas que se pretendiam… hummm… digamos… tensas e dramáticas… Para quem for assistir ao filme com um espírito desarmado e pouco crítico, O Lobisomem pode ser uma sessão ingênua e divertida. Agora, classificar o filme de “terror” não rola. Não mesmo. O gênero se aplica agora a produções como Cidade de Deus e Tropa de Elite, esses sim, autênticas fitas de terror. É onde está o verdadeiro medo. Culpa dos nossos tempos modernos.



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