Elisa Lucinda recebe o título de cidadã honorária de Brasília
A atriz e escritora Elisa Lucinda tem agenda cheia. Em uma mesma manhã, ela cuida das plantas, vai ao médico, ministra aulas, ensaia, visita os amigos, concilia entrevistas e trabalho e faz, diversas vezes, o percurso do Rio de Janeiro a Niterói, onde reside. Tudo de bicicleta. As distâncias parecem ser tão pequenas que Elisa adotou Brasília como sua “Sampa”, em referência à música de Caetano Veloso. Às vésperas de receber da Câmara Legislativa do DF o título de cidadã honorária— o que acha “muito chique” —, a artista reafirma sua relação passional com a cidade. “Já me considerava brasiliense, agora vou virar candanga de vez. Brasília que se prepare!”
É dessa forma, elétrica, com bom humor e língua sempre afiada, que ela se apresenta hoje, às 20h, no sarau Uma Homenagem à Mulher Moderna, no Teatro dos Bancários, onde recebe o título. A mistura de sessão solene com festa se sintoniza com a personalidade da artista. “É uma situação que acho o máximo. Considero chique uma sessão dessas, mas também acho farofa e tamborim um luxo”, esclarece a atriz. E como o relógio de Elisa Lucinda não para, ela estreia a cidadania candanga apresentando o espetáculo Parem de falar mal da rotina, que entra em cartaz amanhã e fica até domingo no Teatro dos Bancários. O monólogo, que já passou por Brasília em 2008 e lotou o Teatro da Caixa, volta com novo texto, atualizado do original escrito por ela em 2004.
A exemplo das crônicas da escritora publicadas no Correio, o monólogo reúne histórias vividas e ouvidas por Elisa em 56 personagens à disposição da atriz, utilizados de acordo com o clima do público. E como a carreira de Elisa não se limita ao teatro — ela concilia os papéis de escritora, diretora e atriz em Parem de falar mal da rotina — o texto contém ainda poesias de sua autoria retirados dos livros O semelhante, Eu te amo e suas estreias e A fúria da beleza. O poema “Minha Sampa” e a carta “Meu exibido amor”, escritos em homenagem à cidade, estão na lista de possíveis declamações na curta temporada candanga.
Em cinco anos de uma turnê “sem possibilidade de férias”, Parem de falar mal da rotina já passou por Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Paraná, Rio Grande do Sul e Barcelona (Espanha). “Uma senhora catalã me declarou que substituiu as pastilhas antidepressivas por sessões do espetáculo. Não sei se é uma troca correta, mas tenho a certeza de que causo um bom efeito colateral”, brinca a artista, que tenta interpretar a própria bula: “Talvez o monólogo inverta a ideia de que rotina é um saco. Chamo a atenção das pessoas de que a rotina só existe quando a produzimos. No fim, somos autores da dramaturgia da vida, com direito a texto, enredo, início, fim e muitos recomeços”.
PAREM DE FALAR MAL DA ROTINA
Amanhã e sábado, às 21h, e domingo, às 20h, no Teatro dos Bancários (314/315 Sul), monólogo de Elisa Lucinda com assistência de direção de Geovana Pires. Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos.
MINHA SAMPA
Ô cidade encantada cujo céu me atravessa,
que mais pretendes me dar?
que mais queres que eu te peça?
Brasília, escuto teu onírico batimento
namoro a tua gente.
Quase tudo em ti de nós é amizade ou flerte,
beijos, beirutes conversas, cartas, bilhetes,
idéias, projetos, bauretes, banquetes.
Anedotas, chacotas, lorotas,
aquilo que germinas, aquilo que brotas e podes e podas,
aquilo que crias, aquilo que mudas, aquilo que modas,
teus índios pensamentos, ungüentos, Chakora
tua arte, teu Hugo rodas!
Ô cidade encantada cujo céu me preserva,
que mais de mim queres? Me peça.
Que mais a ti direi? Me espera.
Brasília, meus olhos são o verde teu, tua reserva.
Cativo e cultivo tua gente que tanto me seduz,
e todo nosso amor é orgânico, não conserva,
é eterno e conduz.
Superquadras, satélites, poderes,
parlamentos, palavras, paladares, dizeres.
Flores, cerrados, amanheceres.
Tudo que freqüento e que eu sempre penso:
Pobrezas, contradições, riquezas,
prêmios, surpresas, delicadezas, prazeres.
Ô cidade danada,
no tumulto da definição,
escrevo sob o silêncio limpo de tua paisagem,
no profundo modo de tu seres,
e o que seriam meros versos
são aqui e agora,
pequenos agradeceres.
Ô cidade encantada, cujo firmamento me pega pela mão,
é bom saberes,
te amo como uma namorada,
te amo como se tu fosses meu varão.
Então, que mais queres que eu te dê,
aonde mais queres que eu a ti outra vez me declare, tesão?
Aonde queres que eu te adule, cheire, mature, emoção?
Hein? Responda em meus ouvidos,
capital sensacional da nação?
Candangos, matizes, chiliques,
gente chique e simples de um certo sertão.
Do jeito que estou e sou e vou,
perdôo-te até pecados perdizes, enganos, deslizes.
Olha pra mim, não sou bonita, como tu dizes,
sou dos honestos daqui, sou daqui então.
Trago promessas e inícios,
aceito nossos vícios
pertenço às estrofes do Vinicius,
quero dizer,
sou da tribo da diplomacia do coração;
sou da cavalaria de Jorge,
sou daqueles do porvir,
dos que desprezam tua corrupção.
Ô cidade encantada cujo céu me reveza na amplidão,
te quero, não digo mais nada.
Alguma coisa acontece no meu coração.
Elisa Lucinda
BSB, verão sem vento, 2009.
Fonte: Correio Braziliense





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