Teatro de Grupo – Tudo pelo coletivo

Enquanto Manuela Castelo Branco abre os potes de maquiagem — pancake branco e vermelho e um lápis preto compõem o estojo — sua personalidade muda gradualmente. O tom de voz, um pouco sério quando o assunto são as dificuldades de se estabelecer como um grupo de teatro, se torna sonhador, passa por picos de euforia e retorna ao timbre original. A transformação termina com o último retoque da maquiagem, quando as sobrancelhas grossas desenhadas a lápis revelam Matusquella, uma palhaça que parece ligada na tomada.

 Quem assiste à transformação mal reconhece a antiga Manuela, muito menos sabe que, por trás da composição da personagem, há o apoio das atrizes Ana Felícia Castelo Branco (a palhaça Cenoira) e Tatiana Carvalhedo, que também atuam na produção. As três formam o Lona Circo Teatro, uma equipe que baseia espetáculos e trabalhos solo na composição coletiva. “Existe a divisão dos papéis, como produção, direção, concepção musical, mas nossos espetáculos são pensados juntos. E todo mundo tem um trabalhão”, define Tatiana.

Esse modelo de criação artística surgiu no Brasil no fim da década de 1960 e hoje configura um modus operandi no fazer teatral na capital do país. De acordo com recente levantamento do Teatro do Concreto, lançado pelo Centro de Referência e Memória do Teatro do Candango sob o nome Guia de Teatro de Grupo do Distrito Federal, os 42 grupos cadastrados se espalham pelo mapa das regiões administrativas, ligando Brasília, Planaltina, Gama, Samambaia e demais cidades pela forma de pensar o teatro, e reúnem 317 atores. Na última década, o DF conheceu a explosão dos grupos, período em que surgiram 69% dos coletivos estudados pelo Teatro do Concreto.

No Guia de Teatro de Grupo, estima-se que iniciativas da Cooperativa Brasiliense de Teatro, criada em 2003, o Festival do Teatro Brasileiro e o Cena Contemporânea, além de ações da Faculdade Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília, tenham fomentado esse pico de novos coletivos. Mas não é de hoje que o teatro de grupo está presente na cidade. Representantes como Esquadrão da Vida, Senta que o Leão é Manso, Grupo Pitu e Tucan começaram a aparecer na década de 1970. Alguns resistem até hoje. “Quando começamos, em 1986, era um projeto de atores, não tínhamos espaço para ensaiar, nem direção certa. Trabalhamos muito em cima de textos clássicos, fazendo uma adaptação para a nossa realidade e com mensagens que dialogassem com o cotidiano daqui”, explica Preto Rezende, diretor do grupo Senta que o Leão é Manso, atuante em Planaltina.

Apesar da proliferação do modelo, movimentos de mobilização só se evidenciaram no ano passado, com o 1º Fórum de Teatro de Grupo do DF, realizado em setembro. O movimento aponta um novo caminho, cada vez mais coletivo, para as companhias locais, facilitando a organização de festivais, colaborações e o diálogo. “Brasília é dividida demais, com a separação em siglas e a organização em quadras. A impressão é que isso reflete nas relações artísticas. Os grupos eram centrados em suas cidades ou estilos, se conheciam, mas havia pouca mobilização. Isso tem mudado e essa capacidade de troca que tem impulsionado os trabalhos”, acredita Marco Michelangelo, do Teatro de Açúcar.

Fonte: Correio Braziliense


Deixe um comentário


RSS dos comentários TrackBack 2 comentários

Marco Michelângelo

em 21 de junho de 2010

Matérias como essas que evidenciam a necessidade de discussão sobre as estruturas culturais da cidade são importantíssimas, belíssimas, tudo no superlativo, porque é num superlativo que eu vejo a cultura da cidade eclodindo, em possibilidades de milhões de matizes de cores, ideologias, ginga, formatações e estilos. Percebo muitas vezes um movimento contrário, a tentativa de enquadrar a cultura do Distrito Federal em ”modelos prontos”, é possível perceber isso tanto em estruturas quanto em resultados de alguns festivais, por exemplo. Mas essa bronca é assunto pra uma outra conversa. A matéria é belíssima, importantíssima… porque vem colocar em questão a necessidade de dialogar e descobrir processos, manhas e lábias. Os lábios da cidade estão com sede disso.


mmara

em 21 de junho de 2010

Bravo!