Minha primeira vez no morro
Há algum tempo no Rio, e pela primeira vez como não-turista, tive dois momentos especiais, que me emocionaram profundamente. O primeiro foi no barracão do Salgueiro, onde fui a convite de um de seus compositores para conhecer seu samba-enredo sobre Cinema – primoroso. Naquele barracão ocorreu um rito de passagem que teve seu ápice junto à bateria da escola, que por alguns instantes também regeu o pulsar do meu peito. E de repente, a musa seminua não mais emanava o erotismo inserido na ilha de edição. Era uma autêntica diva esculpida pelas ladeiras do morro, linda por ser local e não global.
O segundo momento foi ao subir o morro do Vidigal. Onde os cumprimentos são mais sinceros e menos protocolares, como os edifícios e suas grades nos obrigam a ser. É uma gente que gosta de gente. O trajeto mais íngreme foi feito de moto e nem tive tempo de pensar no meu medo de garupa. Estava tão grata pela oportunidade e maravilhada com toda aquela riqueza (e nada de confundir com deslumbre) que agarrei o mototaxista e deixei o vento bater na cara. E de olhos suavemente fechados, fui invadida por um ar tão puro e leve que me fez sorrir.
Chegando ao destino, fui direto olhar pela janela. Havia uma sacada entre um mar de luzes à direita, que por reverência ao sol só brilha à noite, e um mar que foi amanhecendo para finalmente o Rio de Janeiro fazer todo o sentido pra mim. Aquela sacada era a proa e o morro, o navio onde os braços abertos eram os meus. Naquela sacada me senti a mulher mais bonita do mundo e a partir de então, sempre que me lembro do Vidigal, o sopro gelado que vinha do mar invade novamente o meu coração.
MM.
Date: 31 de julho de 2011
Categorias: Crônicas e Líricas



Últimos comentários