Tom Zé fala sobre Marina Mara

"Marina Mara escreveu este texto contando que sou filho de Leon Trotsky e de Frida Kahlo. Essa ascendência clareia, Marina, muitas questões e encrencas experimentadas na infância e na adolescência. Ter sabido antes teria desatado uma maçaroca de nós. Marina foi a um show que fiz em Brasília e escreveu minha origem biográfica com uma capacidade rara. O atual caminho de busca do individualismo por parte dos escritores dá resultados dignos de nota, mas é comum que não se afastem muito de um eixo pessoal que fecha asas e restringe os passos. Com as exceções literárias que os leitores conhecem, por certo. Marina é de uma outra estirpe, ela voa, distancia-se e entrega um texto rico ao leitor. É prazeroso lê-la, ela tem inteligência." Tom Zé.
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Após enviar o texto abaixo, recebi uma resposta linda, do tamano de Tom Zé, segue: 

“Marina Mara escreveu este texto contando que sou filho de Leon Trotsky e de Frida Kahlo. Essa ascendência clareia, Marina, muitas questões e encrencas experimentadas na infância e na adolescência. Ter sabido antes teria desatado uma maçaroca de nós.
Marina foi a um show que fiz em Brasília e escreveu minha origem biográfica com uma capacidade rara. O atual caminho de busca do individualismo por parte dos escritores dá resultados dignos de nota, mas é comum que não se afastem muito de um eixo pessoal que  fecha asas e restringe os passos. Com as exceções literárias que os leitores conhecem, por certo. Marina é de uma outra estirpe, ela voa, distancia-se e entrega um texto rico ao leitor. É prazeroso lê-la, ela tem inteligência.”

O filho brasileiro de Frida Khalo e Trotsky

Coyoacán – México, janeiro de 1936. O casal de pintores mexicanos Frida Khalo e Diego Rivera se separa, novamente; Frida havia descoberto o romance que Diego mantinha com sua irmã mais nova, Cristina Khalo. Mesmo amando-o mais que a sua própria pele, Frida, que havia perdoado várias traições do marido, não suportou sua falta de lealdade e entrou em profunda depressão. Diego então muda-se para um apartamento na Cidade do México e Frida continua na Casa Azul, sentindo no peito dor de amor enterrado vivo.

Nessa época, exilado e correndo risco de morte, chega ao México Leon Trotsky, o ex-líder Bolchevique o qual Stalin perseguia mundo a fora. E não era por saudade. Trotsky era amigo de Diego Rivera, que havia oferecido sua casa como esconderijo por quanto tempo fosse necessário. Ao chegar a Coyoacán era quase madrugada e Trotsky ainda não sabia sobre o rompimento do casal, por isso foi pedir abrigo na Casa Azul. Mesmo sem a presença de Diego, Frida insiste em acolher Trotsky – por quem dedicava grande admiração intelectual. Se inteligência é afrodisíaco, imagina então somada a um bom vinho e a uma bela dor de cotovelo. Não deu outra, Frida e Trotsky se amaram até o dia amanhecer. Porém, um detalhe que não aparece em nenhuma biografia é o fato de que Frida engravidou de Trotsky naquela noite e o filho do casal, por questões de segurança, foi mandado para o Brasil, onde reside até os dias atuais.

Logo nos primeiros meses do menino, Trotsky se muda para a casa de Frida, já reconciliada com Rivera, para ajudá-la na educação daquele que acreditavam ser algum Messias; afinal uma sucessão de ironias fazia do bebê um líder perfeito, pois era a materialização da controvérsia do mundo. Batizado como Messias Khalo Y Leon, tinha avós maternos alemães e os paternos eram judeus. Pai Ucraniano e mãe latina. Além disso, ter um filho era o sonho Frida, que havia quase desistido da maternidade após diversas tentativas frustradas com Diego – era quase um milagre.

O Messias era tudo para Frida, por isso, temendo que Stalin usasse o bebê para vingar-se de Trotsky, os pais mantiveram seu nascimento em segredo. Então, o futuro líder da controvérsia humana seguiu viagem com um amigo do casal para a cidade de Irará, na Bahia, levando consigo uma boa quantia em dinheiro para garantir sua educação. Frida e Trotsky sabiam que provavelmente não veriam mais o filho e que porém não passariam um dia sequer sem pensar nele. O amigo que ajudou a salvar o bebê era o escritor Jorge Amado que, pouco tempo após entregá-lo a tal família, foi preso por participação em movimentos comunistas.

Para justificar a grande quantia em dinheiro, os novos pais do menino disseram ter tirado a sorte grande na loteria e, por recomendação dos pais biológicos, trocaram seu nome. O Messias então passou a se chamar Antônio José Santana Martins, que tem uma inegável semelhança física e intelectual com seus pais. Antônio nunca soube de sua origem – até a publicação deste texto -, porém ao ler entenderá por que nunca conseguiu decidir-se entre o ativismo político e a arte. Dúvida essa que o levou a criar um genuíno ativismo-político-musical e a mudar de nome mais uma vez. O menino a partir de então ficou conhecido por Tom Zé, um dos artistas mais interessantes de seu tempo.

Por Marina Mara

*este texto foi publicado no blog do Tom Zé.

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RSS dos comentários TrackBack 8 comentários

Paulo de Holanda

em 27 de dezembro de 2010

Marina, há tempos não lia alguém tão interessante quanto você. Sem dúvida seu texto é um dos mais criativos do país e aind é tão jovem. Brasília tem dessas coisas, não é? Por conta do céu ímpar, tem mania de parir estrelas de tempos em tempos.

Sucesso garota.

Paulo Holanda


robinson pereira

em 28 de dezembro de 2010

olá, gostaria de saber, claro que por curiosidade, pois sou fã de tom zé, sobre a veracidade dessas informações, se há uma fonte a qual consultou, é fruto de pesquisa feita com o artista, o mesmo sabe disso e se sim, o que pensa ele sobre o assunto?

não quero ofendê-la. é que seu texto, tão interessante, que me gerou estas questões, o que considero comum querer conhecer melhor alguém que se admire.

beijo e abraço.


josi paz

em 28 de dezembro de 2010

amei. passando adiante.


Tom Zé

em 29 de dezembro de 2010

Marina Mara escreveu este texto contando que sou filho de Leon Trotsky e de Frida Kahlo. Essa ascendência clareia, Marina, muitas questões e encrencas experimentadas na infância e na adolescência. Ter sabido antes teria desatado uma maçaroca de nós.
Marina foi a um show que fiz em Brasília e escreveu minha origem biográfica com uma capacidade rara. O atual caminho de busca do individualismo por parte dos escritores dá resultados dignos de nota, mas é comum que não se afastem muito de um eixo pessoal que fecha asas e restringe os passos. Com as exceções literárias que os leitores conhecem, por certo. Marina é de uma outra estirpe, ela voa, distancia-se e entrega um texto rico ao leitor. É prazeroso lê-la, ela tem inteligência.


Ramon

em 5 de janeiro de 2011

kkkkkk… acho que foi a coisa mais fantástica que li por estes tempos!!! Frida Kahlo, Trotsky… Tom Zé… a síntese perfeita!!!
Isso é que é uma “viagem” das mais precisas!!!

Abração e parabéns pelo texto!

Ramon


Patrícia da Silva Oliveira

em 14 de janeiro de 2011

Adorei a história!!! Óbvio!!! como ninguém havia percebido isso antes?


gil

em 29 de janeiro de 2011

ola marina demorou mais achei teu site,e amei! muito bem feito..se vc puder podemos trocar contatos,e vc me passaria mais iformaçoes sobre as ilustraçoes,um grande abraço!vou esperar resposta ansiosamente


Zé Furtado

em 7 de fevereiro de 2012

Muito bom, Marina! “Ativismo-político-musical” é dinamite. A resposta do Tom Zé é uma pérola. Vamo q vamo!