A mulher que seduziu Frida Kahlo

Nova York, 1932. Enquanto Frida se distraía contando prédios pela janela do hotel onde estava hospedada há alguns meses, seu marido, Diego Rivera, se preparava para fazer a social em algum vernissage na “Gringolândia”, programa que Frida não aguentava mais. Faltava coerência nos discursos e em Frida faltava paciência para retrucar o óbvio, novamente; e declinando do convite dizia ao marido: colhão para encarar essa gente eu tenho, o que eu não tenho é saco.

Cheia de tanto vazio, Frida desceu até o bar do hotel para beber algo que afogasse o tempo. O local era aconchegante e a iluminação dava um tom rosado-luxúria a todas as cores. Ela sentou-se e pediu uma tequila ao garçom. Sem limão.

O fundo do bar reservava uma surpresa àquela noite comum, uma bela mulher, do tipo impossível de não ser notada. Ela exalava sua negritude sua realeza em cada fio de cabelo, em cada balangandã.

Frida, já chamando o garçom pelo nome, pede mais uma tequila. Uma dose a mais de incentivo para aproximar-se daquela que acabara de ser despida e pintada com tinta e saliva na mente de Frida. Copo de tequila na mesa. Tequila aquecendo o tom da voz. Copo de tequila vazio na mesa. Frida faz menção de levantar-se, mas observa que ao mesmo tempo a bela mulher também se levantou e agora ela tinha nome, conforme anunciado no palco. Flora, a cantora de Jazz.

Frida sentia que Flora a enxergava nua a cada fechar de olhos de fim de solo. E excitava-se com esse pensamento. No íntimo da imaginação a cantora e a pintora se quiseram e se tiveram. A voz de Flora tinha um mel arrancado à força da colmeia. Era doce e sofrida. Tinha o timbre que teriam algumas das telas de Frida se pudessem cantar.

Após o bis, quando Flora cantou a canção-tabu de Cole Poter Love for Sale, Flora desceu do palco, voltou à sua mesa, pegou sua bolsa vermelho-bordô e sentou-se ao lado de Frida, que havia pedido ao garçom outra dose de tequila. Frida, pela primeira vez sentiu-se intimidada por um decote, afinal, era versada em sedução. E por não teve outra escolha, deixou-se seduzir por Flora.

            Flora: Você é canceriana?

            Frida (curiosa): Sim. Como sabe?

Flora: Pela maneira como você sente a música entrar em você. É como se o coração fosse do tamanho do corpo inteiro... e pela data de nascimento preenchida em seu check in.

Frida sorriu olhando no fundo dos olhos de Flora e colocou sua mão direita sobre a mão esquerda de Flora. Com a mão direita, Flora abriu sua bolsa, pegou um delicado bloco de papel e uma caneta, colocando-os em cima da mesa. A cantora afastou sua mão da mão de Frida e começou a escrever rapidamente. Passou o tempo de um cigarro que Frida tragou contemplando Flora. Assim que Frida amassou o resto de seu cigarro no cinzeiro, Flora terminou de escrever, arrancou a página, a dobrou e a colocou dentro do decote de Frida.

Apressadamente as duas subiram ao apartamento 901, onde Frida estava hospedada. Em poucos minutos elas estavam nuas. Por entre as saias e lenços, voou também o papel com os escritos de Flora, ainda nem lidos por Frida. O suor que misturava as essências femininas era único e ficaria para sempre na memória olfativa das melhores fantasias de ambas. Flora e Frida floresceram intensamente, abrindo-se em flor, eram cores vivas no lençol-tela.

Aquela noite foi o único encontro das artistas que conversaram, riram e se amaram até o sono invadir a cama. E ainda de pernas entrelaçadas aos primeiros raios do dia, Frida acordou e caminhou até o frigobar, quando pisou no bilhete de que trazia escritos rabiscados e a frase:

 

"Adorei conhecer seu apartamento".

Com amor, Flora.

Ao terminar a leitura, Frida, sorri, coloca o copo sobre a mesa, dobra o papel e o guarda dentro do livro A Prima Bette (La Cousine Bette) de Hanoré de Balzac que estava sobre a mesa de centro. Abraçando o livro, Frida passou alguns minutos contemplando o sol que se espalhava pelo corpo de Flora com um tom acobreado que a fazia brilhar ainda mais. E cantarolando a mesma canção de Cole Poter, Frida caminhou suavemente para a cama, abraçou Flora e aconchegada, adormeceu novamente.