Bem-vinda ao seu casamento surpresa

 

Certamente você já foi convidado, bem no dia do seu aniversário, para algum programa nada a ver, o qual você só aceitou por desconfiar (leia-se: ter certeza) de que se tratava de sua festa surpresa e não queria ficar com fama de antissocial, acertei? E se te convidassem para um evento e chegando lá fosse o seu casamento surpresa, qual seria a sua reação? 

Camila e Léo é aquele tipo de casal super querido por todos e o anúncio de que eles se casariam em muito breve deixou toda a galera bi-feliz e também preocupada com o figurino do casório. Porém, a preocupação logo caiu por terra, pois tiveram que realizar uma cerimônia mais simples, só para a família.

Porém, Camila nos mostrava as fotos de seu casamento com um certo pesar. Ela queria demais que os amigos estivessem lá, pois somos como família. Eis que surgiu a ideia de fazermos algo para banir aquele aperto no peito da noiva: um casamento surpresa! E dá-lhe criatividade para tramarmos um plano infalível que contou com a ajuda da família dela, de amigos de infância, de faculdade, entre outros. Inventamos que eu havia vencido um super-ultra concurso internacional de literatura e o prêmio, entre outras mentirinhas, era um mega brunch com direito a levar alguns poucos amigos, e ela nem seria louca de não comparecer – caso fosse real. 

É chegado o tal domingo do casamento e, claro, rolaram alguns contratempos. Um deles, e talvez o pior, foi a notícia de que o noivo não iria “ao brunch da Marina” pois o Flamengo iria jogar às 16h e ele tinha que preparar seu espírito rubro-negro. Tentamos de tudo para arrastar “o urubu” da frente da TV, mas nada adiantou. 

Outro contratempo foi achar flores em Brasília no domingo. Tarefa impossível. Nos dividimos em dois carros em busca das tais flores. Era um tal de ligar e dizer coisas como: “floricultura fechada”, “no mercado tem, mas acabou” e “tentei roubar de um jardim, mas o cachorro me deu uma carreira” que decidi apelar – vamos ao cemitério. Lá chegando vimos que a floricultura também estava fechada, porém, havia uma senhora vendendo uma coroa de flores na porta, com faixa e tudo. Olhamos um para a cara do outro e rolou aquele preconceito fúnebre, o qual engoli e, em nome da amizade, fui lá barganhar. A senhora-salvadora-da-pátria, digo, do casório, disse que só venderia se fosse a coroa inteira, mas só queríamos os girassóis. A coroa era tão cara que acho que muitos também empacotavam só de ouvir o preço. Acabei dizendo a ela que era vidente e que ninguém morreria naquela cidade para não perder o jogo do Flamengo. Ela então fingiu acreditar em minhas premonições e vendeu-nos os girassóis.

Enquanto uns tentavam convencer o noivo a ir ao evento fake sem estragar a surpresa, outra amiga tentava enrolar a noiva, que não é um ser dotado de muita paciência. A situação só piorava, pois estavam rodando na cidade dentro de um carro, ao meio dia escaldante do Cerrado e sem ar condicionado.

Na tentativa de arrastarmos o noivo, oferecemos a ele até mesmo uma caixa de biscoitos Schooby e nem assim ele abriu mão do jogo – tivemos que falar a verdade. Na mesma hora o noivo se tornou um exímio artilheiro e driblou a mesa de centro, o sofá, as almofadas, colocou seu uniforme de noivo e entrou em campo, digo, no altar….aos quarenta e quatro minutos do segundo tempo, diga-se de passagem. Nesse mesmo momento, em outro canto da cidade, Camila já dava sinais de querer desistir do evento. Eis então que a amiga-motorista recebeu a tão esperada ordem: pode trazer a noiva!

Camila, ao chegar, foi recebida pela “dama de honra” João que disse, ao fazer reverências com sua cartola prateada: “seja bem-vinda ao seu casamento!” A casa era linda, com um belo caminho em meio ao jardim que dava no altar. A cada passo que ela dava estava um amigo querido segurando um girassol. Ao entregar as flores diziam coisas como receba amor, amizade, sorte, saúde. Quando chegou ao altar, Camila já estava com um lindo buquê nas mãos devidamente regado com lágrimas super emocionadas. 

E lá estava eu, no altar na incumbência e realizar um casamento. Pensamos em algumas designações para meu papel: “sacerdotisa do amor”, “Santa Antônia”, “mensageira do coração”, dentre outros nomes bregas que tentávamos inventar para me dar a necessária envergadura casamenteira para o momento. Porém, devido ao meu look rastafari e turbante da época, acabaram por me apelidar de Mãe Marininha, e o apelido pegou. Com direito a música e tudo.

Preparei para a ocasião um texto muito íntimo e genuíno, o qual lembrou momentos mágicos que justificavam o amor (como se fosse possível), tanto entre o casal quanto entre os convidados. O chororô foi geral. Parecia final feliz de novela das oito. Então, para finalizar a cerimônia, disse algo como: em nome do amor eu os declaro rima e verso; flor e beija-flor: pode beijar a noiva.

Aquele foi, sem dúvida, um dos momentos mais lindos que presenciei, porém, um pensamento me era recorrente: e se algum defunto já se sentisse dono das flores e me rogasse uma praga lá do além? Então me perguntei: será que praga de defunto pega?

 

Obs.: até a publicação deste texto os noivos não sabiam do “detalhe” do buquê.