Bruxa Urbana

 

Leila gosta de ler Virgínia Wolf enquanto se masturba. Geralmente em sua cama habitada por livros, almofadas e instrumentos musicais. Aquele ritual íntimo é inspirado em ritos femininos Incas nos quais as mulheres ofereciam seus orgasmos à Deusa para que tivessem terras férteis e boa colheita. A oferenda era feita na Ñaupa Iglesia, em Ollantaytambo, no Vale Sagrado Peruano, onde Leila também ofereceu o seu gozo à Pachamama junto à flores amarelas, folhas de coca e sete tipos diferentes de grãos para atrair abundância e florir os seus caminhos.

O ritual que Leila consagrava em seu corpo é um encontro de lobas dentro de si, misturando seu selvagem com seu lírico, seu profano com seu sagrado feminino. Quando o ápice se aproxima, Leila sente seu corpo se transformando em uma máquina de escrever pornografias dedilhadas por sua escritora e fetiche favoritos... no clímax, Leila uiva para Wolf para fechar o ritual. Leila é poeta, ativista humanitária e médica de um hospital público da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro.

Nascida em Urubamba, no Perú, Leila é filha de um diplomata e xamã peruano chamado Elício e de uma ambientalista e doula nascida em Rio Branco, no Acre, de nome Olívia. Ela foi parceira e amiga de Chico Mendes desde a fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri, em 1977 até o dia de sua passagem. As ancestrais maternas de Leila vêm de uma linhagem de curandeiras conhecedoras de ritos e plantas de poder, da qual a Cabocla Jurema é a matriz mais conhecida atualmente. Discreta e amorosamente, Leila aplica os conhecimentos dos povos tradicionais somado aos poucos medicamentos que ainda estão nas prateleiras do hospital, vazias como a esperança de Leila no usurpado sistema de saúde brasileiro.

Leila mora com sua namorada Simone e seu namorado Jean em um charmoso e discreto casarão em Santa Teresa, Rio de Janeiro, no alto do morro. Jean é engenheiro ambiental, músico e fotógrafo. Simone é socióloga, roteirista de histórias em quadrinhos e vocalista de em uma banda cover dos Mutantes. A casa de Leila tem poucos móveis, entre eles uma radiola, uma estante com muitos discos de vinil e um caprichoso altar para Cabocla Jurema. Cada metro livre do espaçoso terraço significava mais um pé de canabis, de algodão, de assa-peixe, de boldo, de chacrona. O cultivo das ervas faz parte de uma ação secreta e humanitária com foco na manipulação de plantas de poder iniciada pelos três ativistas enamorados na Angola onde se conheceram e se casaram - ao pôr-do-sol do Cemitério de Navios em Luanda - antes de se mudarem para o Brasil. Ao chegar em casa exausta de mais uma batalha, Leila anda em direção à cozinha despindo-se e formando uma trilha de roupas por onde passa. Nua, Leila chega à geladeira, alcança uma jarra de mate e serve três copos. Com uma bandeja nas mãos, Leila atravessa o corredor até chegar ao cafofo, um tipo de ateliê, lounge e sala de projeção. O melhor lugar da casa para fazer amor. Durante o dia o cafofo tem uma vista panorâmica da cidade e durante a noite as estrelas e as luzes da cidade se misturam no horizonte.

Ao entrar no cafofo, Leila vê seus amores se beijando, com os corpos nus e dourados pelo sol que se despede na Baia de Guanabara. Ao perceberem a presença de Leila eles sorriem e se amam com ainda mais lascívia. Jean e Simone pegam seus copos e o trio poliamorístico brinda sonoramente à vida, ao amor e à liberdade. Após refrescarem seus corpos e suas bocas, o trio se amou até a lua chegar no meio da janela. Sentindo o cheiro da lua, Simone levanta-se da cama, envolve-se com um lenço leve e abre a janela grande que os separava dos aromas noturnos trazidos pelo vento. É cheiro de lua, respirem, meus amores, respirem, repetia Simone. Por meses Leila, Jean e Simone prepararam unguentos e garrafadas com folhas, cipós, raízes e mandavam entregar na casa dos pacientes que Leila atendia no hospital. Junto ao medicamento, Leila mandava um poema com informações sobre as ervas e o tratamento assinado pela poeta Jurema. Para não despertar a atenção da vizinhança ou da polícia - já que também manipulavam ervas ainda proibidas no Brasil – Jean enviava os remédios naturais via correio, sempre em agências diferentes.

Em pouco tempo a notícia sobre a bruxa poeta corria pela comunidade e pelo hospital. Várias lendas urbanas sobre Jurema surgiram e logo se espalharam sob as mais inusitadas e fantásticas versões. Após uma sexta-feira regada a vinho, frutas exóticas para comer a três e uma sessão de filmes de Tarkovisky, o trio ainda dormia entrelaçado no tatame do cafofo sob os primeiros raios de sol. Jean, como de costume, acorda mais cedo, toma um longo banho e, nu, caminha até a cozinha para preparar o café da manhã. Em quase silêncio para não despertar Simone e Leila, Jean prepara uma salada de frutas, suco de caju com manjericão, panquecas de banana com mel e café preto. Em meio às ervas do terraço, Jean colocou uma mesa com o desjejum para suas amadas enfeitada com flores frescas. Jean caminha até a sala, pega seu violão e desde o corredor dedilha rumo ao quarto a canção Acabou chorare, dos Novos Baianos. Ao entrar no quarto as duas estavam despertando e já cantaroaram a canção. Após as palmas descabeladas, Jean as conduz à mesa do café da manhã, encabulando-as com tanto mimo.

O som insistente da campainha interrompeu aquele bucólico momento. Jean foi até a porta e a abriu parcialmente. Com brutalidade, quatro homens com camisetas amarradas no rosto como balaclavas entram na casa com armas em punho. O mais forte deles, Haley, imobila Jean com uma gravata e aponta uma arma para sua cabeça. - Cadê a maconha playboy? Tá querendo ser o novo dono da boca, porra? - A gente não vende a canabis, a gente faz remédio e distribui para os doentes da comunidade. - Tá escrito otário na minha testa? Eu sei que tu tá querendo vender essa viadagem de maconha orgânica aqui na minha quebra. - Eu juro que não é verdade. Eu posso te provar. Vamos até a sala de feitio. Enquanto os outros invasores rendiam Simone e Leila no terraço, Haley e Jean seguiam para a sala de feitio. Ao passar pelo altar da Cabocla Jurema, Haley fez o sinal da cruz discretamente com a mão esquerda, uma mistura de reverência e medo. Ao entrar na sala de feitio e ver as familiares embalagens dos medicamentos, Haley baixa sua arma surpreso. - Então é aqui o terreiro da bruxa Jurema? - Ela existe mesmo, cara?! É... é.. ela tá aí?! - Não, não chama não, chama não. Tamo vazando.

Sem expressar muitas emoções, Jean responde: “Bom... é ... é... tá bom. Não vou chamar.” Haley correu até o terraço e pede para que seus companheiros soltem Leila e Simone. Após sinceros pedidos de desculpas, os rapazes deixam a casa. Ainda trêmulos, Leila, Jean e Simone se abraçam, sorriem e choram. Leila segue em silêncio até seu quarto, abre sua janela, alcança seu velho cachimbo de madeira que dividia espaço com ervas e fósforos em uma gaveta, coloca em seu interior um pouco de mama cadela, imburana, canabis orgânico e alecrim para carburar melhor.

Leila senta-se na janela, acende o cachimbo e assiste a fumaça revelando os raios de sol que ligavam seu quarto ao céu. Um sorriso invade seu rosto e um aroma de floresta, o ar. Leila sente a essência de sua avó Jurema a seu lado e aquele marcante cheiro de ervas que nunca saia de sua mão. Emocionada, Leila sorri fazendo um sinal de reverência com a cabeça em direção ao aroma inconfundível de ancestralidade que emanava de sua avó.

 

Por Marina Mara