Capoeira x Preconceito

 

Em julho de 2011 conheci Pernambuco cara a cara, pois já era uma apaixonada por sua cultura e seu sotaque há muito tempo. O local onde me instalei oferece aos hóspedes atrações artísticas todas as noites, sempre com foco na cultura local. Artistas levaram ao palco aulas-show de Côco, Maracatu, Frevo e um pouco do cenário pop-nordestino pra inglês ver.

Como em Brasília a humidade do ar estava desértica, aquela chuva de julho era linda, porém em um dos dias achei que haviam invertido o globo terrestre e toda a água do mar pernambucano estivesse inundando o resort. Eu estava ilhada no restaurante com as minhas queridas sobrinhas gêmeas Sarah e Sofia – de (então) onze anos e a sobrinha-postiça Ester – de dez. Então, pensei alto: “show, nem pensar”. Imediatamente o trio-firula me olhou como o gato-espadachim do Shrek, com aquelas pupilas dilatadas de jaboticaba madura. Já era. Matei a preguiça e fui ao teatro.

Após improvisarmos guarda-chuvas, seguimos rumo ao show sem nem consultar a  programação. Ao nos aproximarmos do teatro, o som da chuva cedia espaço a batuques e berimbaus – e pensei: “ainda bem que eu vim”. Ao chegarmos lá, sentamos no fundão a pedido das meninas: “Tia Má, é nerd sentar na frente!”. Eu queria me sentar logo para prestigiar o show, pois se apresentava um lindo Omulu que me hipnotizava com suas palhas – exibindo nossas afrorraízes. No palco havia dezesseis garotos com idade entre oito e quinze anos que pareciam ter asas. Eram integrantes do Grupo Cordão de Ouro, com capoeiristas de Rio Formoso – PE e seu professor, Nino – que há oito anos ajuda a tocar o projeto com muita luta, fora da roda de Capoeira.

O Grupo Cordão de Ouro foi fundado em São Paulo por Mestre Suassuna (Reinaldo Ramos Suassuna) no meio da década de sessenta e hoje é referência internacional no assunto. Mestre Suassuna, que enfrentou bravamente a preconceituosa ditadura militar em São Paulo, é importante figura na luta pela valorização de nossas raízes africanas. Em 74, em parceria com seu primo e mestre das letras  Ariano Suassuna, inseriu a Capoeira no Teatro como manifestação folclórica e expressão corporal, entre outros feitos.

Após o orixá Omulu sair do palco, chega um lindo Ogum, e depois Oxum cheia de espelhos e… “Tia Má, por que eles estão indo embora?”, olhando para mais da metade do público que solenemente se retirava no meio da apresentação balbuciando em vários sotaques palavras como macumba, diabo e saravá. Então eu respondi: “Estão saindo por preconceito, fia.” Aí que me empolguei mesmo. Foi um tal de oraieieu minha mãe, ogunhê, atotô que o povo até achou que eu era da animação do local. Na verdade era um protesto contra o pré-conceito de pessoas que sequer reconhecem suas próprias raízes.

Após o show, corri em meu quarto, deixei as meninas, peguei a câmera e fiz questão de cumprimentar os integrantes do grupo e organizadores do evento pelo importante papel sociocultural – e, claro, conversar sobre o acontecido. Então, já no backstage, cercada pelo grupo, disse: “galera, eu gostaria de agradecer a cada um de vocês pela apresentação de hoje (…) me senti representada como brasileira – além de vocês serem a melhor coisa que vi em Pernambuco.” Após ser abraçada por todos eles, de uma só vez, perguntei se eles sabiam o porquê de muitos terem saído. Eles olharam para o chão, envergonhados por saber.

Falei a eles sobre o desserviço dos colonizadores europeus em relação à difusão da cultura africana; falei sobre Economia Criativa e sobre o orgulho de sermos quem somos. Eles me falaram sobre sonhos, realidade, Capoeira – encontro mágico e riquíssimo. Ao voltar para o quarto, mostrei as fotos dos bastidores às gêmeas: “Tia Má, minha professora de História disse que os Orixás são iguais aos Santos pros católicos, só que usam roupa tipo de Carnaval. Do que aquele povo tava com medo?”. “Sei lá nêga. Acho que é medo de gostar. Como é que vão explicar que se libertaram da senzala intelectual na reunião de condomínio?” “Que condomínio, Tia?” “Viagem minha, fia. Bora dormir.”

– Boa noite Tia Má.

– Boa noite Saroca.

– Boa noite Tia Má, te amo.

– Boa noite Shofis, também amo vocês.

1º de agosto de 2011, por Marina Mara