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    Quando me tornei ativista da poesia

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    Era junho e eu tinha uns nove anos de idade, talvez dez. Toda a molecada da rua estava sentada nas calçadas das casas, no asfalto e onde mais coubesse mais um cortador ou colador de bandeirola para a nossa festa de São João. Aquele ano era especial, pois teríamos a nossa própria barraca. Sem adulto por perto para dar ideias chatas.

    Cada ingrediente para a canjica, a pipoca, o quentão (lê-se: chá de gengibre) foi “doação” das despensas de nossos pais. A estrutura da barraca foi feita com cabos velhos de vassoura, barbante e pedaços de tábua; já o teto era de folhas de bananeira. Um dos colegas trouxe uma extensão e um bocal para lâmpada.

    O sol mal havia se posto e já estávamos todos lá, em nossa apertada barraca, disputando espaço com as iguarias juninas que havíamos preparado. Ela ficava bem no meio da festa, em frente à casa da Marbel. Sua mãe nos forneceu ponto de água e energia. E também um pouco de açúcar para acertar o ponto da canjica. A mãe de Marbel nos emprestou um pote de biscoitos vazio para que guardássemos o dinheiro. Ela se ofereceu para guardar nosso rico dinheirinho para, com calma, fazermos a partilha no dia seguinte. Segundo ela, algum aproveitador poderia roubar da gente.

    – “Oi, quanto é a pipoca?”

    – “Putsgrila! (gíria da época) Vocês que fizeram a barraca sozinhos?”

    – “Uau! Parabéns meninos. Me dá duas canjicas”.

    – “(…) um quentão (…) tem álcool não? (…)”

    – “Que fofos!”

    – “Posso dar o troco em pipoca?”

    Ainda no meio da festa e já tínhamos vendido tudo. Estávamos em êxtase, pois era nosso primeiro empreendimento – que foi um sucesso. Pensar no que eu faria com o dinheiro no dia seguinte era excitante demais para conseguir dormir. Revezavam em minha mente duas opções: comprar uma camiseta do Guns N´Roses (por quem fui fanática até os onze) ou comprar algo para presentear a minha mãe.

    Na manhã seguinte eu tive a impressão de que até o sol estava de casaco. Então, por cima do pijama de flanela, coloquei mais um agasalho e fui à casa de Marbel, cheia de sono e sonhos. Fui a primeira a chegar. Ela e a mãe conversavam. Na verdade a mãe falava e Marbel ouvia. Quando me aproximei, a mãe dela me entregou duas notas e algumas moedas, o suficiente para comprar um sorvete com cobertura. Não conseguindo disfarçar a minha enorme decepção, enchi os olhos de lágrimas, sem deixar cair nenhuma. E a mãe de Marbel se antecipou:

    – Do lucro eu tirei a água e a energia que vocês usaram, a xícara de açúcar e a parte da Marbel. O resto dividi entre vocês.

    Ouvindo aquelas palavras, tantas outras se acotovelavam em minha garganta, doidas para serem ditas. Passava pela minha mente todo o nosso esforço e senti uma sensação estranha de não querer mais o dinheiro. Era como se aqueles trocados fossem o preço da etiqueta grudada em meu sonho. Se tudo o que passava pela minha cabeça e meu coração era tão complicado de entender, imagina explicar. Meu sentimento não era raiva, era um profundo desejo de que a mãe de Marbel fosse uma pessoa mais bonita, para que meu dia também fosse. Porém, me senti impotente. Então, já de olhos secos, respirei fundo. Olhei para o rosto daquela senhora e nada disse a ela. Peguei meus trocados, com os quais comprei não me lembro o que, e fui pra casa pensando no que eu poderia fazer para mudar aquela situação, aquele coração.

    Creio que nascia ali o sentimento que me fez ativista da poesia.

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    Por, Marina Mara