Detalhes da vida

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Dez de julho de mais um ano, aniversário de Dalva e dia do seu casamento. Motivo para juntar a família, os amigos e conhecer finalmente os primos do interior do Pará que Dalva só conhecia por foto. Dalva era só sorrisos, pois realizava, enfim, o sonho de sua vida, casar-se com Reginaldo.

No altar, Dalva não conseguia se concentrar no discurso do Padre. Estava lá de corpo presente, mas seu pensamento andava longe. Ela assistia em flashes o filme dos últimos 12 anos de sua vida ao lado de Reginaldo, com direito a trilha sonora de Roberto Carlos, que embalou com a música Detalhes a entrada da noiva na igreja de Santo Expedito.

Durante os nove anos de noivado, Dalva teve tempo para preparar todo o enxoval com capricho de joão-de-barro. Dalva teve o cuidado de bordar com ponto-de-cruz as iniciais D&R em cada toalha, lençol, lenço, na capa do liquidificador. Quando bordava a letra D, sentia como se estivesse bordando no coração de Reginaldo com pontos bem firmes para que durasse para sempre seu amor.

Reginaldo era caminhoneiro. Passava a maior parte do tempo longe de casa, nas estradas da vida - e sem aliança de compromisso comprada por Dalva em dez não-suaves prestações. Nas últimas três vezes que adiaram a data do casamento, o motivo foi um só: Reginaldo ainda não havia conseguido trocar seu caminhão por um mais novo e maior. Ele dizia à paciente noiva que, com o novo veículo, poderia ganhar mais dinheiro e dar a ela uma vida digna de princesa, “como macho tem que fazer”. Dalva sempre acatava a vontade do noivo para agradá-lo e por medo de Reginaldo desistir do casamento. As eloquentes tias de Dalva diziam que aquilo era desculpa para não se casar com ela. E a eterna noiva, receando ser mesmo verdade, tentava não pensar sobre o assunto, para não atrair azar.

Dalva se manteve virgem até os vinte e sete anos. Era sonho de menina casar-se de branco, grinalda de flor-de-laranjeira, para obter as bênçãos de Iara, e um longo véu que cobrisse todo o chão da igreja de Santo Expedito, era como se sua pureza fosse medida pelos metros de tule que arrastavam as pétalas de rosas pelo tapete vermelho. O sonho de Dalva era passar a lua de mel no Rio de Janeiro, mas teve que adiar esse sonho, pois suas economias foram todas para pagar a igreja e a passagem dos pais do noivo para a cerimônia.

Reginaldo usava uma loção pós-barba com o cheiro muito forte para camuflar o cheiro de álcool de sua despedida de solteiro que durou até o dia do casamento pela manhã. Aquele cheiro de ontem enjoava Dalva, que pediu para que abrissem as janelas da igreja para circular melhor o ar. Após as janelas abertas e um longo sermão do padre sobre amor, fidelidade e outras palavras das quais a maioria dos presentes não se lembra, chegou a aguardada pergunta. Dalva diz sim. Reginaldo responde com um não. E após uma gargalhada, responde que sim, achando-se espirituoso. Só os amigos bêbados acharam graça, talvez a graça que Dalva acabava de perder pela deselegância do – agora - marido.

É hora de jogar o buquê. Em segundos o salão da igreja virou um conglomerado de cotoveladas. E um, e dois, e... contrariando as sonhadoras madrinhas, primas e outras mulheres da cerimônia, Dalva acerta a janela aberta feita de vitrais azuis que ilustrava o Santo padroeiro da igreja e o buquê cai no terreno abandonado ao lado da igreja de Santo Expedito.  O vigia do local foi o sortudo que o pegou.

Após abraços e um simples coquetel ali mesmo na igreja, Dalva sente uma mistura de nervosismo com plenitude. Com as mãos frias e o coração em brasa, Dalva ensaia uma saída estratégica com o marido para a sonhada noite de núpcias. Dalva planejou a sua primeira noite de amor com Reginaldo de-ta-lha-da-men-te. Dalva ficava acordada na madrugada tecendo sonhos, bordando cenas românticas que habitarão sua vida com Reginaldo. Ela ensaiou o que diria a ele na hora exata da entrega de sua castidade, escolheu cuidadosamente qual vinil do Roberto Carlos estaria na vitrola. De olhos fechados ela sentia até o cheiro que estaria em sua cama. Uma mistura do perfume forte de Reginaldo com o cheiro da fumaça do caminhão que, por mais que se lavasse, parecia ter se entranhado em sua pele. Cheiro que ela gostava. Dalva sentia a essência marcante do noivo misturada ao seu perfume, Toque de Amor, da Avon.

Finalmente, casa. No taxi, já sem os sapatos que apertavam seus pés inchados, Dalva não conseguia desviar o pensamento do que a aguardava a poucos quilômetros dali. Seu novo endereço e o local onde, contrariando seu sonho,  passaria a sua lua-de-mel. O nervosismo a inundava com infindáveis ondas de suor. O que era agravado pelo apertado vestido e por estar espremida no banco de trás do táxi por seu marido bêbado e adormecido.

O taxi parou em seu novo endereço e o velho sonho de ser carregada no colo vestida de noiva morreu no instante em que percebeu que era Reginaldo quem precisava ser carregado. O taxista a ajudou a carregá-lo para a cama que foi delicadamente arrumada por Dalva e decorada com pétalas de rosas vermelhas, suas favoritas. Apesar do cansaço, Dalva não conseguia pregar os olhos. Por mais compreensiva que fosse, não conseguia esconder a decepção que foi a sua primeira noite de casada.

É dia. Dalva foi até a cozinha preparar algo especial para sua possível manhã de núpcias.  Ela ligou o rádio baixinho para não acordar Reginaldo e para a sua surpresa Roberto Carlos cantava “...Amanhã de manhã, vou pedir um café pra nós dois...”. Dalva não se conteve e chorou. Ali morria também o sonho de receber, em sua lua de mel, o café da manhã na cama assim como nas novelas que assistia e nas canções de Roberto.

Dalva estreou seu jogo de mesa bordado com suas iniciais em ponto-cruz, fez o café e enfeitou a mesa com algumas flores que caíram de seu buquê no alvoroço da saída para a igreja horas atrás. Reginaldo acordou quase na hora do almoço e a chamou no quarto. Ele pediu para que ela levasse para ele uma garrafa de água bem gelada. Ela levou a garrafa e um copo. Ele bebeu quase um litro de água num só gole, no gargalo. Então, caiu no sono novamente, sem sequer agradecer à esposa.

Quando caiu a noite, após um dia monótono cheio de resmungos e meios diálogos, Dalva desistiu de esperar pela atenção do marido e preparou um banho de sal grosso com manjericão. O primeiro limpa tudo, inclusive mau-olhado e a erva repõe o que for bom. Dalva despiu-se na sala para não acordar Reginaldo, enrolou-se no roupão e foi para o banheiro tomar seu banho mágico.

Reginaldo desperta com o barulho do velho chuveiro elétrico. Ele bebe mais um copo de água da moringa que está sobre o criado mudo, pega sua pochete e retira de lá um pequeno pacote plástico contendo um pó branco, o qual inala na unha do dedo mindinho, propositalmente grande para esse fim.

No meio do banho, toc-toc, Dalva assusta-se com a inesperada visita do marido. Dalva abre e ele entra sem dizer uma palavra, beijando-a com violência, empurrando-a com seus beijos e despindo-se urgentemente até chegar ao chuveiro. Reginaldo vira-a de costas para ele, “como um macho deve fazer”. Dalva sentiu que mais um sonho seu se desfazia. Ela não sabia se a dor era física ou na alma. O nervosismo do momento embaralhava realidade e fantasias, deixando-a enjoada. A deflorada esposa retomou sua consciência quando ouviu Reginaldo dizendo: “Agora sim você é minha mulher de verdade. E outra coisa, na minha casa não se ouve esse X-9 do Roberto Carlos não. Engomadinho do caralho.” Ele então saiu do chuveiro, enxugou-se, jogou a bordada toalha no chão e voltou para a cama. Dalva, ainda abalada, chorou.

As lágrimas de Dalva carregadas pela água do chuveiro davam a impressão de que seu pranto lavava todo o seu corpo que exibia uma fina trilha vermelha que corria por sua perna direita e desaparecia no ralo em forma de espiral. Dalva chegou a desejar também desaparecer como a água no encanamento. Ficou no banheiro por um longo tempo. Dalva respirou profundamente, vestiu-se com o roupão e foi para a cozinha preparar o jantar.

Os meses se passavam e aos poucos os sonhos românticos de Dalva se esvaiam um a um. Sua vida de casada era monótona e o único verdadeiro prazer que tinha era escutar incansavelmente os discos de Roberto Carlos, os quais escondia em uma mala velha que empoeirava em cima do guarda roupas, o lugar mais seguro da casa. Dalva também gostava de ler o que o horóscopo da revista Astros dizia sobre as românticas cancerianas.

Em uma chuvosa tarde de céu gris, escutando seu ídolo na radiola, Dalva adormeceu e foi tomada por um cheiro de mar a dar para ouvir as ondas. Era sua lua de mel no Rio de Janeiro, com Roberto Carlos. Ao despertar, Dalva foi recebida por Roberto com pétalas de rosas, uma bela bandeja repleta de frutas cortadas, suco e pãezinhos quentes. Ela, atônita, não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Mas escutava cada palavra que Roberto dizia, ou melhor, cantava.

De súbito, Roberto ficou mudo, ela via seus lábios se movimentando, mas nada podia escutar, foi então que ouviu um chiado que inoportunamente a despertou. O disco havia acabado e a agulha desgastava-se no selo do vinil. Dalva levantou-se desconfiada e caminhou por toda a casa em busca de Roberto. Aquele onírico encontro foi motivo para deixar Dalva feliz por vários dias. Roberto havia devolvido sabor à sua insossa realidade.

Quando Reginaldo voltou de viagem, Dalva o recebeu com o carinho de uma mulher dedicada, mas não mais apaixonada. Preparou um jantar trivial, vestiu-se e despiu-se ao gosto do marido. Dalva olhava para Reginaldo dormindo a seu lado e sentia culpa pelo sonho que recorrentemente a invadia... deliciosamente. Era essa a realidade, Dalva nutria um sentimento mais forte por um ser imaginário do que por seu marido.

Mais uma partida de Reginaldo e mais uma chance de reencontrar Roberto. Como num ritual, Dalva vestiu-se com o mesmo vestido florido que trajava na tarde do sonho, colocou o mesmo disco de vinil na vitrola, tomou um chá de camomila duplo e deitou-se no sofá. Em pouco tempo já estava dormindo. E mais uma vez, como desejava, encontrou Roberto Carlos no mesmo quarto do hotel com vista para o Pão de Açúcar, doce como em seus sonhos. Ele se virou para Dalva e disse: “Não adianta nem tentar me esquecer”. Como se fosse possível se esquecer do único homem que a fez sentir-se linda. Roberto caminha em direção à Dalva e a conduz até a cama com os olhos fixos nos dela. Ele beija sua mão esquerda, deita-a na cama de lençóis de seda com cor de pérola e suavemente de encaixa em seu abraço.

Dalva sentiu um desejo nunca antes imaginado e nem visto nos filmes ou nas novelas. Como quem abre a barca do tesouro encontrado, Roberto a despiu lenta e apaixonadamente. A cada mínima parte desnuda de seu corpo, ele vestia de beijos e de sussurros musicais. Roberto a olhava com contemplação e lascívia. Dalva sentia-se flutuando em seus braços e foi então que ele, com o cuidado que se tem com pássaros no ninho, adentrou sua essência... florindo-a de prazer e gozo. Ela acordou meio assustada com o som de seu próprio gemido. Dalva por alguns segundos ficou fora de órbita e quando voltou, teve a doce sensação de, pela primeira vez, se sentir mulher.

No dia seguinte, Dalva acordou cedo, foi ao salão de beleza para ficar tão linda por fora como se sentia por dentro. E como toda mulher apaixonada, Dalva não tinha muito assunto fora do universo de seu amado amante. Sua sorte foi que Marlene, a manicure, também era fã de Roberto. Com uma sensação de liberdade nunca antes experimentada, Dalva declarava seu amor por Roberto com naturalidade, sem culpa – e com um leve ciúme de Marlene, uma esguia e bela negra de Cachoeira na Bahia.

 A nova Dalva estava empoderada e cheia de sonhos novamente. Resoluta, Dalva não tardou em fazer com que esses encontros se repetissem com mais frequência. A cada encontro, várias descobertas. Cada noite um vinil e uma suíte de hotel de um lugar diferente. Dalva ia para a cama cada dia mais cedo e mais tarde se levantava. Ela cantarolava o dia inteiro, bailava da sala para o quarto, da cozinha para o tanque. As úmidas camisas de Reginaldo serviam de par para a valsa que balbuciava até chegar ao varal para estendê-las. Passava o dia como uma criança a tramar travessuras. Voltou a bordar. Cozinhava delícias, plantava rosas e foi trocando seu enxoval aos poucos por tons em branco e azul, as cores favoritas de Roberto. Dalva ocupava seu tempo como podia, isso fazia com que a noite chegasse mais rápido. Naquela noite, ao adormecer, Dalva teve uma grande surpresa. De repente ela se viu vestida de noiva, num altar de braços dados com Roberto. Ele, com os olhos úmidos, olhou fundo nos dela e disse: Sim. Sim. Sempre.

Roberto beijou a mão de sua a esposa, pegou delicadamente o buquê de sua mão, desamarrou as rosas e deu algumas para Dalva. Sobre os presentes. Eles beijavam cada rosa e as entregavam aos presentes, a maioria atores das novelas e dos filmes favoritos de Dalva. No fundo da igreja, discreto e sedutor estava Eduardo Tornaghi e seus olhos azul-poesia; Tarcísio Meira, com sua Glória, recebeu a rosa, beijou-a e prendeu-a na lapela de seu paletó; Odair José não se aproximou, só acenou do fundo da igreja, antes de partir com sua guitarra em riste.

Chegando em casa após sua lua de mel e carregada por Roberto, Dalva ouve o primeiro comentário do marido dos seus sonhos: “ Que lindo, há nossas iniciais, D&R, em todo o enxoval.”

Logo o dia raiou e Dalva acordou com o ronco do motor do caminhão de Reginaldo. Ela havia esquecido completamente de que ele retornaria naquela manhã. Recebê-lo já havia se tornado incômodo e ela quase não conseguia disfarçar essa nova realidade. Dalva já havia pensado em separar-se de Reginaldo, já que se sentia mal em trair Roberto, mas temia a reação de marido violento. Nunca houve um só caso de separação em ambas as famílias até então e historias de fins trágicos nessas ocasiões eram recorrentes naquela pequena cidade. Mesmo assim, Dalva tentou introduzir o assunto, mas logo foi silenciada com um sonoro “chega!”. Reginaldo saiu de casa e se embebedou, inalou todo o pó branco que guardava em sua pochete. Ele voltou para sua casa violento e cheio de deveres de macho a cumprir. Reginaldo, mais uma vez, bateu em Dalva. E dessa vez com os discos de vinil que ela displicentemente esqueceu ao lado da radiola, quebrando um a um.

A cada viagem de volta de seu marido ela rezava pedindo proteção. Dalva sentiu falta da ausência e do descaso que o marido sempre teve por ela. Reginaldo, embriagado, informou-a que, a partir daquele dia, ela o acompanharia em suas viagens, pois não confiava mais na esposa sozinha. Dalva tentou argumentar, mas um covarde tapa no rosto a calou.

Dalva chorava muito, não se alimentava direito, não se embelezava mais, sentia que sua vida havia perdido o sentido. O seu casamento com Reginaldo havia se transformado em um inferno, mas sua dor maior era a de não mais poder se encontrar com seu verdadeiro amor já que a radiola também foi proibida naquela casa.

Em uma dessas viagens infindáveis, enfadonhas e em meio a uma briga interminável com o bêbado marido ao volante, Dalva rezava mentalmente pedindo proteção. Ela dizia uma palavra sequer para não agravar a ira do marido. Trêmula, com um terço nas mãos, pedia a Santo Expedito que trouxesse novamente a paz para sua vida. Os faróis dos carros que vinham em sentido oposto iluminavam suas lágrimas cada vez mais intensas. Dalva fechou os olhos e com toda a sua fé pediu para que o santo devolvesse a ela sua alegria de viver. Foi então que uma luz muito forte quase cegou Dalva e um estrondo acordou todo aquele vilarejo de beira de estrada.

Reginaldo saiu ileso do acidente e cumpriu seu dever com a justiça dos homens. Tomado por um sentimento de culpa, Reginaldo sentiu pela primeira vez que amava e precisava de Dalva, a única pessoa no mundo com poder de absolvê-lo. Cuidar de Dalva, que desde o acidente se encontrava em estado vegetativo, fazia com que sua culpa fosse amenizada. Reginaldo levou para o hospital onde a esposa estava internada o toca discos de sua casa e um confortável fone de ouvidos. E para a alegria de Dalva, levou toda a coleção de discos de Roberto Carlos comprada em um sebo no centro da cidade. A cada novo álbum que era lançado, lá estava ele comprando para presentear sua esposa adormecida. Era pedido dele que as enfermeiras colocassem os discos durante todo o dia para Dalva escutar. Apesar da correria do hospital, algumas enfermeiras – também fãs de Roberto Carlos – se revezavam para virar o vinil quando a música parava de tocar.

Reginaldo parou de beber, vendeu o caminhão e abriu uma modesta loja de peças automotivas na parte da frente de sua casa para que pudesse ficar mais presente na vida de Dalva.

Reginaldo não entendia como, naquela situação, poderia estar se sentindo tão pleno. A culpa pelo estado de Dalva, os quais amenizava com mimos à esposa, fez dele um homem melhor. Todas as noites, antes de dormir, Reginaldo ficava horas imaginando o que poderia estar passando pela mente de sua esposa naquele momento.

O que Reginaldo nunca poderia suspeitar era que, da maneira mais improvável, ele havia devolvido à Dalva a sua maior alegria. A vida de dela agora era somente dormir e ouvia o som de Roberto Carlos. O que antes era somente sonho havia se transformado em sua nova realidade. E sob as bênçãos do santo das causas impossíveis, Dalva, Roberto e Reginaldo foram felizes para sempre.