Hitler, o primeiro Emo da história

 

Adolf Hitler era ariano. E como um bom clichê zodiacal, não levava desaforo para casa, era passional, líder e impulsivo ao extremo. Desde a juventude, Adolf desenvolvia uma íntima relação com a arte – música, pintura e  arquitetura principalmente. Também era um exímio apreciador de Ópera, do tipo que chora ao final do terceiro ato.

Carmem era sua Ópera favorita. E Flora a atriz que melhor interpretava a protagonista – a cigana fogosa que inebria com seu decote ao som de castanholas. Hitler assistiu a todas as apresentações de Flora e nas últimas ofereceu-lhe buquês de girassóis. Ele estava apaixonado por uma tal Carmem Flora que constantemente se apresentava em suas fantasias.

Flora também se apaixonou por Adolf. Ele era sedutor, inteligente e proibido. O sexo, sempre às escuras, era intenso – sempre… a feminilidade dela aflorava pelos lençóis. Porém Flora o deixou sem dar explicações – para não magoá-lo com a verdade. Ela era travesti e judia.

Hitler procurou por Flora de teatro em teatro. Procurou como pôde. Mas ela quis sumir. Muito astuto e apaixonado, Adolf descobriu qual era a cidade natal de Flora e partiu para lá às pressas. E lá descobriu que seu nome de batismo era Isaac e que ainda bebê havia sido adotado por um casal alemão. Algumas pessoas do local já sabiam do affairdos dois, pois a cidade era pequena demais para caber um segredo desse tamanho.  Hitler, constrangido com aqueles olhares jocosos  – e pasmo, agradece pela informação e volta para casa. Ainda no trem, Hitler berra desesperado para fora do último vagão que estava vazio como se quisesse deixar para trás tantas mentiras, tanto amor enterrado vivo. Em meio àquela catarse sob a fina chuva que vinha das laterais do trem, Hitler se revoltou.

Adolf abriu sua sacola de viagem e pegou seu kit barba, um espelho improvisado e raspou os cabelos quase em moicano, deixou só um bigode à la Charlie Chaplin e levou a muito fundo suas emoções. Lambeu os cabelos com as mãos cobrindo parte da testa. Nascia ali o primeiro Emo da história.

Hitler não deixou barato, tinha o gosto da vingança nos olhos e no orgulho ferido. Queria matar cada um que soubesse de sua história de amor e pederastia; e a Isaac queria matar com requintes de crueldade, para que doesse tanto quanto o ego ferido que o cegava. Hitler, então, entrou para as forças armadas e logo inventou um pseudo plano antissemita para os soldados, que não eram dotados de muita inteligência, conseguindo assim adeptos para executar seu plano secreto de vingança contra Isaac e todos aqueles que sabiam de seu passado. O resultado  dessa desastrosa empreitada o mundo todo já sabe – dispensa comentários.

Em 30 de abril de 1945, quando seu ego ficou sem ar e pediu arrego, Hitler ouviu o ranger da porta que estava somente cerrada em seu esconderijo em Berlim. Era Flora, que conhecia gente influente no batalhão. Ela estava linda como na primeira vez em que a viu. Hitler ficou pasmo e logo sacou uma arma para Isaac, mas não tinha forças para atirar, Flora levaria a bala. E trêmulo, deixou a arma cair. No mesmo momento as lágrimas inundaram seu rosto. Era saudade doída demais. E Flora, com gosto de vingança, olhou fundo nos olhos de Adolf e beijou-lhe até as vértebras. Hitler estava em êxtase e se entregou aos seus mais secretos desejos, era como se o mundo fosse outro e ele fosse o mesmo de alguns anos atrás.

Após ejacular solenemente sobre o uniforme de Hitler, Flora abaixou-se, pegou a arma que estava no chão, entregou-a a Adolf e saiu pela mesma porta que entrou, fechando-a. Hitler, olhando terno para a porta, vestiu seu uniforme e arrumou seus cabelos. Ainda no corredor, Flora abre sua bolsa e pega um pequeno espelho, um batom vermelho e enquanto retoca sua maquiagem ouve o disparo que entrou para a história da humanidade – contada como convém.

Por, Marina Mara