De Repente Hip Hop

Tudo na capital federal é tão setorizado que até seus habitantes são agrupados por sotaque. No caso da Ceilândia, onde a maioria é de Nordestinos, muitos novos brasilienses cresceram ao som do repente e aprenderam com seus pais a rimar e a amar a terra onde nasceram. Passaram-se os anos, vieram outras influências musicais e a sanfona dos pais se tornou a pick-up dos filhos, a xilogravura virou grafite e o rastapé agora é quase acrobático – e assim, de Repente, Ceilândia se tornou referência em Hip Hop.

Grande parte de minha adolescência morei na Ceilândia, que, pelos sprays da DF Zulu, educou meu olhar para o Grafite. Lá aprendi que o Hip Hop não é uma questão de preferência musical, mas de posicionamento social. Na época dessa foto, em 1995, eu tinha dezesseis anos e era B. Girl (dançarina de Hip Hop) e fazia parte dos Cover Boys, grupo formado basicamente pela galera da Ceilândia. Nossos rachas eram geralmente em frente ao Conjunto Nacional e lá, no último sábado do mês, resolvíamos nossas desavenças no meio da roda, com a dança… mesmo sem ter desavença alguma, só pra manter a marra.

Como eu nunca consegui fazer cara de mau, desenvolvi meu jeito de desafiar os dançarinos, que vinham de todo o DF, principalmente de Planaltina, Gama e às vezes de Goiânia. Em um desses rachas, duas enormes dançarinas negras vindas da capital goiana me desafiaram, entrando na roda e dançando controucê, controu vê – iguaizinhas e muito bem por sinal. Como final da apresentação, uma simulou arrancar a minha cabeça e lançar para a outra como uma bola de basquete – seus amigos aplaudiram.

Desafiada e com a responsabilidade de representar o meu grupo, entrei na roda e mostrei tudo o que sabia. Porém, ao final, retirei meu chapéu e fingi tirar uma flor de dentro, então, Charlie Chaplimente, entreguei-a àquela que há poucos minutos havia me degolado em praça pública.  A roda lo-ta-da veio a baixo em aplausos. Não satisfeita com a degola, agora a Mike Tyson do Hip Hop me fuzilava com o olhar e eu, com meus poucos quilos, rezava para São GOG me ajudar a chegar em casa ilesa, mas sem deixar transparecer, claro.

É chegado o fim do racha e o início de meu desespero, pois a caravana-zangada de Goiânia era duas vezes maior que a nossa. Para minha sorte, eles desapareceram e eu voei rumo à rodoviária. Chegando lá procurei pelo meu ônibus, porém, o que eu encontrei foi a degoladora, bem na minha frente, parecendo ser ainda maior e mais forte devido ao meu cagaço. Ela então me estendeu a mão e disse: “pra uma branca, até que você dança direitinho”. Eu apertei a mão dela e sorri com todos os dentes, agora, sem medo de perdê-los.

Ainda no ônibus, já chegando em casa, eu e meu intacto-rostinho-branco respirávamos aliviados enquanto assistíamos a um dos mais lindos pores-do-sol que já vi – o da Ceilândia e, no meu walkman, o poeta do Hip Hop cantava o meu hino da época:

“Brasília Periferia…Brasília Periferia”.

Marina Mara 06 dejulho de 2011