O policial, o preso e a poesia

Rio de Janeiro – É quase Natal, data que Edivan receberá a visita dos pais soteropolitanos que ainda não conhecem os netos de dez e sete anos. Brasília – No mesmo dia e hora Preto não recebeu visitas. E também não receberá no Natal. Preto é detento de um presídio na capital federal e perdeu o contato com sua família, também baiana, que se espalhou pelo Brasil em busca de trabalho. Edivan é Policial Militar no Rio de Janeiro. Ambos convivem com a violência diariamente. Ambos não têm mais sono tranquilo. Edivan e Preto são soldados de uma guerra desumana que os colocou, na teoria, em exércitos opostos, porém há algo sutil que hoje os une – a poesia. Despida de julgamentos, presenteei ambos com o livro de poemas Sarau Sanitário.com.

Era hora do almoço na praia de Copacabana, me avisou meu estômago. Antes que eu me deixasse seduzir pelo tapa-buraco Mate com Limão e “Bixcoito Grobo” juntei meus pertences praianos, entre eles um exemplar do meu livro, e fui pra casa. Ao esperar o sinal verde para atravessar a Avenida Atlântica vi alguns policiais do outro lado da rua. De súbito fui tomada por uma profunda vontade de presenteá-los com meu livro. Quando dei por mim, olha eu lá, conversando com Edivan, que me sorriu com todos os dentes e olhos ao receber o presente. “Não importa o que façamos, sempre dá pra fazer com um pouco de poesia, é ou não é?”, falei com os colegas de Edivan, que também sorriram. E mostrando o livro – que é lindamente ilustrado pela artista plástica Clarice Gonçalves – acrescentei: “o livro é para todos vocês e deve ser passado de mão em mão, beleza?”

– Beleza! (mais sorrisos)

Eu não conheci o Preto. Mas sei que ele tem a pele alva e gosta tanto do apelido irônico que finge ter esquecido seu nome civil. Ele é conhecido de uma amiga minha muito querida que o presenteou com o mesmo livro que Edivan recebeu anteriormente. Ele adorou o livro, o qual tem lido para os colegas de cela, geralmente no fim da tarde, me disse sorrindo a minha amiga.

Eu sei que essa ação simples não acabará com a violência e outras mazelas, mas meu mundo fica mais bonito quando imagino destinos felizes para meus versos. E assim vai minha mente fértil, imaginando gatilhos não disparados, a comunidade acordando com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, noticiários do bem na TV e outras viagens megalomaníacas, porém sonhada com o coração.

Marina Mara