Lula, aquele peido não era meu

 

Há alguns anos trabalhei na área de hotelaria na capital federal. E não se enganem. Por trás daqueles uniformes impecavelmente formais e penteados a la comissária de bordo, há seres detentores de histórias hilárias, pois, em hotel, tudo de mais inusitado sempre acontece. Porém, os funcionários passam por treinamento Jedi para aprender a não cair na gargalhada no calor dos acontecimentos, ou seja, na cara do hóspede. Mas nos bastidores, daria para cobrar ingresso a título de show de humor.

Certa vez, quando trabalhava num desses locais-pra-lá-de-granfinos, onde o preço de um suco daria para comprar toda a plantação de laranjas, algo inusitado aconteceu. O local chamava-se Top Class (a mais alta classe) e lá eu assessorava ministros, presidentes de outros países, artistas e até o Lula, em pré-campanha-presidencial, deu um pulinho lá para trocar umas figurinhas com o, então governador, Cristóvam Buarque e um outro senhor com pinta de petista que nunca vi mais gordo, nem magro.

Quem é brasiliense lembra-se muito bem do orgulho que sentíamos – e ainda sentimos – com a criação da faixa de pedestre, que logo foi promovida de enfeite de asfalto a símbolo de civilidade candanga e exemplo para todo o país. Isso sem falar no Arte por Toda Parte, entre outros projetos. Nessa época, na ocasião da visita do Lula-lá, eu, caradepaumente e doidinha para mostrar ao então presidente do PT que o Cristóvam era O Cara na época, arquitetei um plano. Interrompi os três senhores que estavam na top-mesa e pedi um autógrafo para o governador. Meio surpreso com o pedido ele disse: “como assim você quer um autógrafo meu sendo que o Lula (leia-se Deus) está sentado aqui também?”Então eu respondi: não tem problema, se ele quiser me dar um autógrafo também eu aceito. Por dentro eu dizia Yes! Yes! E ambos escreveram belas palavras para a top-fã aqui.

O trio-PT estava aguardando a desocupação da top-sala-de-reuniões para, com mais privacidade, terminarem o convercê. Assim que a sala modernosa foi deixada pelo hóspede que a ocupava, como de praxe, entrei para ver se estava tudo em ordem para que os três entrassem. Porém, ao entrar na sala, notei que o tal hóspede havia deixado mais que uma xícara suja de café e papéis rabiscados. Ele havia deixado no ar a flatulência mais inflamavelmente perigosa que minhas narinas tiveram o desprazer de inalar. Cheguei a pensar que era impossível que somente um orifício teria capacidade de fazer tal estrago, era como se a camada de ozônio se alargasse um pouco mais pela ação solitária daquele homem. E ainda dizem que dinheiro compra educação.

Com a face meio arroxeada de tanto prender a respiração enquanto arrumava a sala, pois era minha obrigação atender bem o filho de dona Lindu e seus convidados, olhei para a porta e tive a clara comprovação de a lei de Murphy é a única que não deixa lacuna, nunca falha. Eis que entram na top-flato-sala o trio PT. Agora éramos cinco. Eu, Lula, Critóvam, o tal cara e o peido, esse último, o mais espaçoso de todos.

Foi inevitável que os três olhassem para mim e, mesmo não sendo nenhuma médium leitora de mentes, pude ler em letras garrafais e em uníssono: “nossa, que mocinha mal educada!” Eles logo começaram a se abanar com pastas e com o que tinham à mão, alegando que a sala estava quente, mesmo estando gelada pelo ar condicionado. Agora pergunto: o que eu poderia falar para o Lula lá? Ia dar uma de Maluf e dizer: esse peido não é meu?! Enfim, saí da sala muda e, apesar do alívio de não mais dividir a top-bufa com o eles, tenho pra mim que, após o acontecido, ao combinar alguma reunião, eles se referiam ao hotel como “aquele hotel da mocinha do peido.”

Como nunca é tarde para que a verdade venha à tona: Lula, aquele peido não era meu.