Luna

Há algumas noites um sonho recorrente habitava a mente de Luna. Sempre sozinha em meio à mata escura, Luna catava folhas e galhos para construir um abrigo, mas antes que esse ficasse pronto, Luna por  um avião caindo próximo a ela - e ela acordava de sobressalto. Na noite seguinte a construção e o sonho recomeçavam do zero. Luna tinha aerofobia, que desenvolveu após seu pai morrer em um acidente aéreo em 2009, o que tornava o sonho ainda mais perturbador.

Em uma manhã de início de primavera, antes de se levantar da cama, Luna se sentiu meio rio, meio mar era como se toda a água que compõe seu corpo estivesse hipnotizada e atraída pela lua que já a habitava antes de surgir no céu. Uma sensação parecida a invade sempre que vai entrar no palco para dançar e também nos segundos antes de jorrar sangue de lua. Ao ver aquele vermelho vida brotando de seu ventre Luna se sentia mais bicho, mais bruxa.

Naquela tarde Luna limpou seu altar que continha a imagem de algumas de suas Deusas, dentre elas, a da pintora mexicana Frida Kahlo, a mesma que Luna tatuou no tornozelo esquerdo anos atrás. Visitar a casa onde viveu Frida, no México, era um grande sonho de Luna que há anos foi abortado por seu medo de voar de avião. Luna tinha Frida como uma alquimista de sentimentos e assim como ela desejava transformar dor e saudade em arte, no seu caso, a dança.

A noite caiu e a lua raiou ainda mais grandiosa que a previsão. Luna havia convidado alguns amigos e preparado uma fogueira xamânica para contemplar o fenômeno na chácara onde morava. Na medida em que a lua cruzava o céu, seu tamanho diminuía e seu dourado dava lugar a um tom de terra do cerrado. Ao alcançar seu ponto máximo, veio a primeira mordida dada pela sombra da terra. E no mesmo lugar, outra mordida e outra. Em uma hora de espetáculo, a lua trajou-se de todas as suas facetas. Minguou, cresceu, rejuvenesceu e mexeu com velhos sonhos de Luna, como o de voar novamente. Foi uma noite de magia, de celebração à Deusa pela música, pela dança. Aquela noite tornou-se eterna por sua beleza prenhe de mistérios, os quais estavam apenas começando a se revelar.

Findo o eclipse, é hora de recolher os instrumentos sagrados, apagar a fogueira para que essa não se alastrasse pela mata seca do cerrado. Luna ajudou a guardar as taças, dividiu as frutas que sobraram entre os amigos presentes e guardou o hang drum, seu instrumento favorito. No meio do costumeiro caminho de volta para casa, um pouco mais escuro devido à lua vermelha, havia uma pequena fenda no chão coberta por folhas secas e cascalho, uma verdadeira armadilha do destino na qual Luna pisou em falso e caiu sobre seu tornozelo esquerdo, já uivando de dor. Impedida de caminhar, Luna foi carregada até o carro que voou para o hospital.

No caminho Luna ainda retirava da roupa e dos cabelos alguns galhos, folhas e um casulo de borboleta que havia ficado preso em seu casaco. Luna observou o casulo delicadamente por uma fração de segundos e cogitou a possibilidade de ainda conter ali uma futura borboleta. Sua contemplação foi abruptamente interrompida pela dor que sentia no tornozelo, então guardou cuidadosamente o casulo na caixa dos óculos de sol que estava em sua bolsa já na porta do hospital. Após os exames veio a justificativa de toda aquela dor; Luna havia rompido todos os ligamentos próximos ao tornozelo, que também se quebrou na queda. A frieza do médico ao anunciar que Luna teria que passar por uma delicada cirurgia e sua incerteza acerca das sequelas do acidente doeu ainda mais fundo em seu coração de dançarina, dor que não poderia ser sanada com cirurgia.

Durante o procedimento médico, que cortou a tatuagem de Frida Kahlo ao meio para alcançar o osso quebrado, Luna teve novamente o sonho que termina com a queda do avião. E lá estava ela novamente catando galhos e folhas para construir seu abrigo, mas desta vez não foi o acidente aéreo que a interrompeu, mas uma borboleta azul que a rodeava. Encantada com a visita, Luna deixou seus afazeres e se dedicou a segui-la mata a dentro. Após alguns metros caminhando entre flores, árvores e pressentimentos, Luna avista a borboleta próxima a seu pai que está sentado à sombra de uma enorme amendoeira. Aquele instante trajou-se de eternidade e inundou seu coração com uma paz tão intensa que medos já não cabiam naquela realidade. Delicadamente Luna se aproximou do pai, sentou-se ao seu lado e sorrindo observaram a borboleta dançando com o vento e os cabelos de Luna, até pousar em sua perna esquerda, bem na testa da Frida Kahlo, exatamente no local onde a cirurgia estava sendo realizada naquele momento. E surpresa, Luna olhou para seu pai e disse: “Até na pele dos outros a Frida ainda sofre”. E seu pai respondeu: “o sofrimento é opcional, Luna e esperar sentada não é um problema quando se sabe voar.” 

Já em casa, na cama onde repousaria pelas próximas semanas, Luna foi tomada pelo sentimento pós-cirúrgico de gratidão pela vida somado à emoção de rever seu pai. Ao pensar em seu sonho, Luna lembrou-se do casulo de borboleta que havia guardado em sua bolsa. Luna alcançou a bolsa, abriu a caixa dos óculos de sol e suavemente pegou o casulo, o observou e o deixou no altar a seu lado, aos pés de Iansã - a deusa dos ventos. Luna notou que uma brisa leve regia o bambuzal que cantava próximo à sua janela, melodia que a ninou até adormecer. Nesse momento a borboleta azul entrou em seu quarto e em sua vida novamente, pousando no curativo da cirurgia. Em seguida entrou uma borboleta amarela, duas brancas e logo um panapanã de borboletas cobriu o corpo de Luna e a envolveu em um casulo de galhos e folhas.

Após algum tempo o casulo começou a ser rompido de dentro para fora, revelando um colorido tão vivo quanto a presença de seu pai. E livre das amarras que a envolvia, uma exuberante borboleta surgiu e sem poder esperar mais, bateu suas novas asas e ganhou o mundo a partir da janela de seu quarto. Após algumas horas, Luna acordou com o som urgente das cigarras ao pôr-do-sol. Olhou para seu altar, para o casulo e para Frida. Então, respirou fundo e empoderada alcançou seu calendário de mesa, folheou-o até o final onde exibia o calendário do ano seguinte, 2016, e fez um círculo no dia 6 de julho, onde escreveu: comemorar o aniversário de Frida em sua casa, no México.