Museu da Corrupção

 

Trim! Trim! Trim!

Traduzindo o som retrô do despertador: hora de acordar!

Carlos, ainda sonolento pelas fortes comemorações do feriado, tampa a cabeça com o travesseiro tentando abafar o som que o avisa sobre suas obrigações diárias. Ao se virar, seu movimento brusco derruba o livro que estava lendo antes de adormecer, ainda aberto na mesma página, virado para o chão. Após poucos minutos, Carlos se levanta e, ainda sentado à beira da cama, calça seus chinelos e fica de pé, trajando uma cueca azul de seda estampada. O caminho do quarto para o banheiro é feito de olhos quase fechados, no piloto automático e arrastando os chinelos. Ao entrar no banheiro, Carlos passa a mão esquerda na parede à procura do interruptor de luz, mas não o acha. Sem dar muita importância e ainda de olhos cerrados, Carlos vai até o vaso sanitário e inicia seu loooongo primeiro xixi do dia.

Plic!

Após o som da última gota de urina ecoar no vaso sanitário, Carlos veste sua samba-canção e vira-se para se olhar no espelho, mas a escuridão o impede de se ver claramente. Pensando em voz alta, Carlos resmunga: pô, cadê a luz?! E como em um passe de mágica – plim! A luz se acende e revela um banheiro levemente diferente do qual havia urinado antes de adormecer. Desconfiado, Carlos caminha lentamente em direção a pia. Ao abrir o armário em busca de sua escova de dentes, Carlos depara-se com um painel contendo vários botões com escritos abaixo: “Higiene Bucal”, “Medicamento”, “Contraceptivos”, “Perfumaria”. Carlos se assusta e fecha a porta do armário rapidamente e, atônito, olha lenta e desconfiadamente à sua volta e balbucia: “primeiro a luz e agora isso?” Assim que Carlos pronuncia a palavra luz, a mesma se apaga. Após alguns segundos de profundo silêncio e sem se mexer, Carlos diz: “luz?”, então ela se acende novamente. “Luz. Luz. Luz. Luz”, apaga-acende-apaga-acende… até que uma voz suave, porém robótica, emana do armário e diz: “Carlos, desperdício de energia é crime ambiental.”

Ainda mais ressabiado após o sermão robótico-matinal, Carlos caminha até a cozinha, abre o armário, pega um copo de vidro e abre a geladeira em busca de água. Antes mesmo de alcançar a garrafa, uma voz diz: “Bom dia Carlos, a temperatura hoje é de 15 graus em Brasília com possibilidade de chuva no fim da tarde”. Trêmulo e com os músculos travados, Carlos se serve de água até a borda do copo, fecha a geladeira e bebe o líquido numa golada só – como se faz com cachaça de má qualidade – e joga o restante da água na pia. Então ouve a mesma voz: “Carlos, não desperdice água, a vida do planeta depende dela.”

Apressadamente, Carlos caminha até a sala, retira o jornal de cima de sua poltrona para se sentar e diz – em tom irônico: “luz”. E a luz se acende. Carlos se senta e faz menção de colocar o jornal sobre a mesa de centro, porém, no meio do caminho, uma manchete do jornal chamou sua atenção: “Brasília inaugura o Museu da Corrupção”. Ainda mais curioso, Carlos abre o jornal e coloca seus óculos para ler a matéria:

Brasília – Foi inaugurado na manhã de ontem (21) o Museu da Corrupção, na extinta Câmara dos Deputados, em Brasília, que, por incrível que pareça, há cem anos era considerada a capital nacional da corrupção (…).

Ao ler esse trecho da matéria, Carlos aproxima o jornal de seus olhos, como se não acreditasse no que está lendo, e o relê. Após confirmar a informação, Carlos olha a data do jornal: 22 de abril de 2112. Com o susto, Carlos lança o jornal para o outro lado da sala e suas páginas se espalham pelo chão. Ainda sem entender o que estava acontecendo, Carlos caminha lentamente entre os cadernos e encartes do jornal – lendo só as manchetes:

“O Piauí é novamente campeão mundial em IDH”. Mais um passo e: “Educação – Telecurso 2º Grau será exibido em horário nobre na Rede Globo”. Logo ao lado de um encarte verde escrito “Minhocasa Minha Vida” estava o caderno de Esportes: “Olimpíadas – Brasil ultrapassa a China e os EUA no quadro de medalhas”.  Um pouco mais à esquerda estava: “Cultura – Bahia é eleita a capital mundial do Cinema” e mais no fundo da sala: “Segurança – Após a legalização da maconha, sem trabalho, ex-traficantes procuram nova colocação profissional”.

Carlos sente-se meio zonzo então senta-se no chão, entre a primeira página do jornal e o encarte de carros elétricos, apoiando as costas e a cabeça na parede. Carlos fecha os olhos na esperança de que, ao abri-los, tudo voltasse ao normal. Ainda de olhos fechados, Carlos encolhe as pernas e abraça seus joelhos, onde apoia sua testa. Minutos após, menos atordoado, Carlos abre os olhos e a primeira imagem que vê é o mesmo caderno que fala sobre o Museu da Corrupção. Com raiva, Carlos pega o jornal e lê em voz alta o restante da matéria:

(…) Antes de se tornar referência em ética, o Brasil passou por sérias crises socioeconômicas pautadas pela impunidade aos políticos corruptos que “trabalhavam” em Brasília. Nessa época, na Capital do país, ainda funcionava a onerosa sede física do governo, extinta pelo Golpe de Estudo – comandado pelos estudantes em 2064 – quando o governo passou a ser virtual e 100% colaborativo.

Quase cinquenta anos após o Golpe de Estudo, para comemorar seu aniversário, Brasília ganhou mais uma obra de Oscar Niemeyer, o Museu da Corrupção, assunto que o arquiteto se lembra sem saudades: “Brasília – e o Brasil – nem sempre foram essa maravilha que é hoje. Antes do Golpe de Estudo, a capital carregava o arbitrário estigma de ser corrupta apesar de eleger somente oito dos 513 deputados que lá residiam”. E, espirituoso, completa: “A atmosfera da cidade está tão monumental que decidi fazer meu próximo casamento na Nova Catedral e aberto ao público.”(…)

Carlos interrompe a leitura, atônito, pois teve ali a certeza de que estava – mesmo – louco. Em meio a esse desespero, ele pensa em ligar para alguém. Ao aproximar a mão do telefone, ele começa a tocar:

Trim! Trim! Trim!

De sobressalto, Carlos acorda, em sua cama. O som não era do telefone, como no sonho, era do dispositivo “soneca” de seu despertador, que voltou a tocar após dez minutos. Ainda meio confuso, Carlos se levanta rapidamente da cama para ir ao banheiro. Ao se levantar, ele pisa o livro que estava lendo antes de adormecer. Então abaixa-se para pegá-lo e vai folheando-o no caminho para o banheiro. Ao olhar a página que estava virada para o chão, Carlos lembra-se de ter sido aquela a última a ser lida antes de cair no sono. Com os olhos no livro e a mão esquerda no interruptor – que estava na parede! – Carlos caminha até o vaso sanitário, prepara a mira e, paralelemente ao seu loooongo primeiro xixi do dia,  relê a página:

Casa da Mãe Brasília

Sou de Brasília mas

Juro que sou inocente

Já dizia Nicolas Behr

Para não ser confundido

Com toda essa gente

Que governa com má fé

Mal simpatiza com a cidade

Mas veio aprontar aqui

A fama fica para a Capital

A grana para a cidade natal

Seja no Oiapoque e no Chuí

A capital do Rock nos oitenta

Que hoje é referência em Choro

Na construção nos anos sessenta

Tinha o Forró como seu hino

Era tão moderna a arquitetura

Que para estar à altura

Até a Catedral usou boca-de-sino

A moda era essa na ocasião

Diferente de hoje com tantas

Cuecas e meias em exposição

Brasil, mande pra Brasília

As suas iguarias e deixe

As ninharias morrerem

De inanição.

Ao compreender que toda aquela confusão não passou de um sonho, Carlos soltou uma gargalhada a se ouvir da portaria do prédio e, já atrasado para o trabalho, se dirigiu para o banho – o mais rápido e o mais sustentável que tomou em sua vida.

Marina Mara, setembro de 2012