O Elfo e a Caliandra

 

… então, de repente, uma tromba d´água carregou as flores que o Elfo havia plantado e regado com o que tinha de mais bonito. Após esse fato, com o coração esmagado feito plástico-bolha, ele jurou nunca mais plantar uma flor sequer. Então o Elfo trancou seu jardim e enterrou a chave pensando em nunca mais usá-la.

Em certa primavera, uma borboleta amarela invadiu o oco tronco sombrio no qual o Elfo morava desde que deixou seu jardim. Quando se deu conta, ele a estava seguindo de maneira quase hipnótica e, distraído, não notou que havia caminhado rumo ao seu jardim até dar de cara no portão. De lá o Elfo viu que o jardim estava florido novamente e assustado saiu correndo para seu tronco.

O Elfo, que havia desaprendido a sorrir, passou noites em claro numa confusão de sentimentos e pré-sentimentos. Após diminuir o susto, ele caminhou até o local onde a chave estava enterrada. Lá chegando, viu que havia brotado uma linda Caliandra, a qual exibia em um dos seus galhos retorcidos a chave de seu jardim.

Ele a olhou demoradamente, mas nada fez. Ainda doído pela tromba que lhe devastou as flores e se instalou em seu humor, o Elfo tentou não pensar no que havia visto no jardim, pois já havia se acostumado ao vazio de seu tronco, que seguramente nunca seria invadido por uma tromba d’água. Porém, dia a dia mais borboletas o visitavam trazendo nas asas o cheiro do jardim embebido em possibilidades e medos.

Não passou muito tempo, o Elfo pegou uma pá, foi até a Caliandra e a retirou de lá com cuidado quase cirúrgico. Ele a levou até o portão, o qual estava lacrado com uma grossa corrente enferrujada exibindo seu cadeado-pingente. Trêmulo, o Elfo se inclinou para pegar a chave, encostando displicentemente o nariz nas rubras madeixas da flor, e riu como criança. Nesse momento, como mágica, o cadeado se partiu diante de sua verdadeira chave, a que estava enterrada no peito do Elfo. Então, com o sorriso ainda nos olhos e de alma leve, ele fitou a Caliandra de perto, a ponto dos olhos se tornarem um só. E naquela enorme íris coletiva havia um arco que os ligava de forma tão intensa e sutil que a partir de então, eles nunca mais enxergaram o mundo com meio olhar…